    Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
inteno de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestao do pensamento humano..

So Bernardo
Graciliano Ramos
So Bernardo
crculo do Livro
Captulo um
CIRCULO DO LIVRO S.A. Caixa postal 7413 So Paulo, Brasil
Edio integral Capa de Massao Hotoshi
Licena editorial para o Crculo do Livro por cortesia da Livraria Martins Editora S.A.
 proibida a venda a quem no pertena ao Crculo
Composto pela Abril S.A. Impresso e encadernado em oficinas prprias
46810119753
Antes de iniciar este livro, imaginei constru-lo pela diviso do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte 
moral e as citaes latinas; Joo Nogueira aceitou a pontuao, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composio tipogrfica; para a composio literria 
convidei Lcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traaria o plano, introduziria na histria rudimentos de agricultura e pecuria, faria 
as despesas e poria o meu nome na capa.
Estive uma semana bastante animado, em conferncias com os principais colaboradores, e j via os volumes expostos, um milheiro vendido graas aos elogios que, agora 
com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou gua na fervura, compreendi que no nos entendamos.
Joo Nogueira queria o romance em lngua de Cames, com perodos formados de trs para diante. Calculem.
Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da
Revoluo de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que no usaram lenos vermelhos. Torceu-me a cara. E ramos amigos. Patriota.
Est direito: cada qual tem as suas manias.
Afastei-o da combinao e concentrei as minhas esperanas em Lcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa ndole e que escreve o que lhe mandam.
Trabalhamos alguns dias. A tardinha Azevedo Gondim entregava a redao ao Arquimedes, trancava a gaveta onde guarda os nqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, 
pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a consertar com dois ou trs homens, alcanava So Bernardo. Comentava os telegramas 
dos jomais, atacava o governo, bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessrio, comandava com submisso:
- Vamos a isso.
amos para o alpendre, mergulhvamos em cadeiras de vime e ajeitvamos o enredo; fumando, olhando as novilhas caracus que pastavam no prado, embaixo, e mais longe, 
 entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.
A princpio tudo correu bem, no houve entre ns nenhuma divergncia. A conversa era longa, mas cada um prestava ateno s prprias palavras, sem ligar importncia 
ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a consider-lo uma espcie de folha de papel 
destinada a receber as idias confusas que me fervilhavam na cabea.
O resultado foi um desastre. Quinze dias depois
6
do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois captulos datilografados, to cheios de besteiras que me zanguei:
- V para o inferno, Gondim. Voc acanalhou o troo. Est pernstico, est safado, est idiota. H l ningum que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista no pode escrever como fala.
- No pode? perguntei com assombro. E por qu?
Azevedo Gondim respondeu que no pode porque no pode.
- Foi assim que sempre se fez. A literatura  a literatura, Seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negcios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta  
outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ningum me lia.
Levantei-me e encostei-me  balaustrada para ver de perto o touro limosino que Marciano conduzia ao estbulo. Uma cigarra comeou a chiar. A velha Margarida veio 
vindo pelo paredo do aude, curvada em duas. Na tone da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena. Em seguida enchi o cachimbo:
-  o diabo, Gondim. O mingau virou gua. Trs tentativas falhadas num ms! Beba conhaque, Gondim.
7
Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja e iniciei a composio de repente, valendo-me dos meus prprios recursos e sem indagar se isto me 
traz qualquer vantagem, direta ou indireta.
Afinal foi bom privar-me da cooperao de Padre Silvestre, de Joo Nogueira e do Gondim. H fatos que eu no revelaria, cara a cara, a ningum. Vou narr-los porque 
a obra ser publicada com pseudnimo. E se souberem que o autor sou eu, naturalmente me chamaro potoqueiro.
Continuemos. Tenciono contar a minha histria. Difcil. Talvez deixe de mencionar particularidades teis, que me paream acessrias e dispensveis. Tambm pode ser 
que, habituado a tratar com matutos, no confie suficientemente na compreenso dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma 
ordem, como se v. No importa. Na opinio dos caboclos que me servem, todo o caminho d na venda.
Aqui sentado  mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo caf, suspendo s vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, 
digo a mim mesmo que esta pena 
um objeto pesado. No estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego  janela que deita para a horta. Casimiro Lopes pergunta se me falta alguma coisa. - No.
Casimiro Lopes acocora-se num canto. Volto a sentar-me, releio estes perodos chinfrins.
Ora vejam. Se eu possusse metade da instruo de Madalena, encoivarava isto brincando. Reconheo finalmente que aquela papelada tinha prstimo.
O que  certo  que, a respeito de letras, sou versado em estatstica, pecuria, agricultura, escriturao mercantil, conhecimentos inteis nesse gnero. Recorrendo 
a eles, arrisco-me a usar expresses tcnicas, desconhecidas do pblico, e a ser tido por pedante. Saindo da, a minha ignorncia  completa. E no vou, est claro, 
aos cinqenta anos, munir-me de noes que no obtive na mocidade.
No obtive, porque elas no me tentavam e porque me orientei num sentido diferente. O meu fito na vida foi apossar-me das terras de So Bernardo, construir esta 
casa, plantar algodo, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. 
Tudo isso  fcil quando est terminado e embira-se em duas linhas, mas para o sujeito que vai comear, olha os quatro cantos e no tem em que se pegue, as dificuldades 
so horrveis. H tambm a capela, que fiz por insinuaes de Padre Silvestre.
Ocupado com esses empreendimentos, no alcancei a cincia de Joo Nogueira nem as tolices do Gondim. As pessoas que me lerem tero, pois, a bondade de traduzir isto 
em linguagem literria, se quiserem. Se no quiserem, pouco se perde. No pretendo bancar escritor.  tarde para mudar de pro
10
fisso. E o pequeno que ali est chorando necessita quem o encaminhe e lhe ensine as regras de bem viver.
- Ento para que escreve? - Sei l!
O pior  que j estraguei diversas folhas e ainda no principiei.
- Maria das Dores, outra xcara de caf.
Dois captulos perdidos. Talvez no fosse mau aproveitar os do Gondim, depois de expurgados.
Comeo declarando que me chamo Paulo Honrio, peso oitenta e nove quilos e completei cinqenta anos pelo So Pedro. A idade, o peso, as sobrancelhas cerradas e grisalhas, 
este rosto vermelho e cabeludo, tm-me rendido muita considerao. Quando me faltavam estas qualidades, a considerao era menor.
Para falar com franqueza, o nmero de anos assim positivo e a data de So Pedro so convencionais: adoto-os porque esto no livro de assentamentos de batizados da 
freguesia. Possuo a certido, que menciona padrinhos, mas no menciona pai nem me. Provavelmente eles tinham motivo para no desejarem ser conhecidos. No posso, 
portanto, festejar com exatido o meu aniversrio. Em todo o caso, se houver diferena, no deve ser grande, ms a mais ou ms a menos. Isto no vale nada. Acontecimentos 
importantes esto nas mesmas condies.
Sou, pois, o iniciador de uma famlia, o que, se por um lado me causa alguma decepo, por outro lado me livra da maada de suportar parentes pobres, indivduos 
que de ordinrio escorregam com uma sem-vergonheza da peste na intimidade dos que vo trepando.
Se tentasse contar-lhes a minha meninice, precisava mentir. Julgo que rolei por a  toa. Lembrome de um cego que me puxava as orelhas e da velha Margarida, que 
vendia doces. O cego desapareceu. A velha Margarida mora aqui em So Bernardo, numa casinha limpa, e ningum a incomoda. Custa-me dez mil-ris por semana, quantia 
suficiente para compensar o bocado que me deu. Tem um sculo, e qualquer dia destes compro-lhe mortalha e mando enterr-la perto do altar-mor da capela.
At os dezoito anos gastei muita enxada ganhando cinco tostes por doze horas de servio. A pratiquei o meu primeiro ato digno de referncia. Numa sentinela, que 
acabou em furduno, abrequei a Germana, cabritinha sarar danadamente assanhada, e arrochei-lhe um belisco retorcido na popa da bunda. Ela ficou-se mijando de gosto. 
Depois botou os quartos de banda e enxeriu-se com o Joo Fagundes, um que mudou o nome para furtar cavalos. O resultado foi eu arrumar uns cocorotes na Germana e 
esfaquear Joo Fagundes. Ento o delegado de polcia me prendeu, levei uma surra de cip de boi, tomei cabacinho e estive de molho, pubo, trs anos, nove meses e 
quinze dias na cadeia, onde aprendi leitura com o Joaquim sapateiro, que tinha uma Bblia mida, dos protestantes.
Joaquim sapateiro morreu. Germana arruinou. Quando me soltaram, ela estava na vida, de porta aberta, com doena do mundo.
Nesse tempo eu no pensava mais nela, pensava em ganhar dinheiro. Tirei o ttulo de eleitor, e Seu Pereira, agiota e chefe poltico, emprestou-me cem mil-ris a 
juro de cinco por cento ao ms. Paguei os cem mil-ris e obtive duzentos com o juro reduzido para trs e meio por cento. Da no baixou mais, e
14
estudei aritmtica para no ser roubado alm da convenincia.
De bicho na capao (falando com pouco ensino), esperneei nas unhas do Pereira, que me levou msculo e nervo, aquele malvado. Depois vinguei-me: hipotecou-me a propriedade 
e tomei-lhe tudo, deixeio de tanga. Mas isso foi muito mais tarde.
A princpio o capital se desviava de mim, e persegui-o sem descanso, viajando pelo serto, negociando com redes, gado, imagens, rosrios, miudezas, ganhando aqui, 
perdendo ali, marchando no fiado, assinando letras, realizando operaes embrulhadssimas. Sofri sede e fome, dormi na areia dos rios secos, briguei com gente que 
fala aos berros e efetuei transaes comerciais de armas engatilhadas. Est um exemplo. O Dr. Sampaio comprou-me uma boiada, e na hora da ona beber gua deu-me 
com o cotovelo, ficou palitando os dentes. Andei, virei, mexi, procurei empenhos e ele duro como beira de sino. Chorei as minhas desgraas: tinha obrigaes em 
penca, aquilo no era trato, e tal, enfim, etc. O safado do velhaco, turuna, homem de faco grande no municpio dele, passou-me um esbregue. No desanimei: escolhi 
uns rapazes em Cancalanc e quando o doutor ia para a fazenda, ca-lhe em cima, de supeto. Amarrei-o, meti-me com ele na capoeira, estraguei-lhe os couros nos espinhos 
dos mandacarus, quips, alastrados e rabos-de-raposa.
- Vamos ver quem tem roupa na mochila. Agora eu lhe mostro com quantos paus se faz uma canoa.
O doutor, que ensinou rato a furar almotolia, sacudiu-me a justia e a religio.
- Que justia! No h justia nem h religio. O que h  que o senhor vai espichar aqui trinta
15
L1M1NrV3,V5
!r
contos e mais os juros de seis meses. Ou paga ou eu mando sangr-lo devagarinho.
Dr. Sampaio escreveu um bilhete  famlia e entregou-me no mesmo dia trinta e seis contos e trezentos. Casimiro Lopes foi o portador. Passei o recibo, agradeci e 
desped-me:
- Obrigado, Deus o acrescente. Sinto muito terlhe causado incmodo. Adeus. E no me venha com a sua justia, porque se vier, eu viro cachorro doido e o senhor morre 
na faca cega.
No tornei a aparecer por aquelas bandas. Se tornasse, era um tiro de p de pau na certa, a cara esfolada para no ser reconhecido quando me encontrassem com os 
dentes de fora, fazendo munganga ao sol, e a supresso da minha fortuna, que eu conduzia dentro de um chocalho grande, arrolhado com folhas e pendurado no aro 
da sela. Ali estava em segurana: se o dinheiro e as folhas cassem, o chocalho tocava.
Afinal, cansado daquela vida de cigano, voltei para a mata. Casimiro Lopes, que no bebia gua na ribeira do Navio, acompanhou-me. Gosto dele. E corajoso, la, 
rasteja, tem faro de co e fidelidade de co.
16
Captulo quatro
Resolvi estabelecer-me aqui na minha terra, municpio de Viosa, Alagoas, e logo planeei adquirir a propriedade So Bernardo, onde trabalhei, no eito, com salrio 
de cinco tostes.
Meu antigo patro, Salustiano Padilha, que tinha levado uma vida de economias indecentes para fazer o filho doutor, acabara morrendo do estmago e de fome sem ver 
na famlia o ttulo que ambicionava. Como quem no quer nada, procurei avistar-me com Padilha moo (Lus). Encontrei-o no bilhar, jogando bacar, completamente bbado. 
Est claro que o jogo  uma profisso, embora censurvel, mas o homem que bebe jogando no tem juzo. Aperuei meia hora e percebi que o rapaz era pexote e estava 
sendo roubado descaradamente.
Travei amizade com ele e em dois meses emprestei-lhe dois contos de ris, que ele sapecou depressa na orelha da sota e em folias de bacalhau e aguardente, com fmeas 
ratunas, no Po-sem-Miolo. Vi essas maluqueiras bastante satisfeito, e quando um dia, de novo quebrado, ele me veio convidar para So Joo na fazenda, afrouxei 
mais quinhentos milris. Ao ver a letra, fingi desprendimento:
- Para que isso? Entre ns.. . Formalidades.
17
_+lati  -nr,.rn:.
i
Mas guardei o papel.
Achei a propriedade em cacos: mato, lama e pot como os diabos. A casa-grande tinha paredes cadas, e os caminhos estavam quase intransitveis. Mas que terra excelente!
 noite, enquanto a negrada Bambava, num forrobod empestado, levantando poeira na sala, e a msica de zabumba e pfanos tocava o hino nacional, Padilha andava com 
um lote de caboclas fazendo voltas em redor de um tacho de canjica, no ptio que os muambs invadiam. Tirei-o desse interessante divertimento.
- Por que  que voc no cultiva So Bernardo? - Como? perguntou Padilha esfregando os olhos par causa da fumaa e encostando-se a um mamoeiro que murchava ao calor 
do fogo.
- Tratores, arados, uma agricultura decente. Voc nunca pensou? Quanto julga que isto rende, sendo bem aproveitado?
Lus Padilha revelou com a mo e com o beio ignorncia lastimvel num proprietrio e, sem ligar importncia ao assunto, voltou s rodas interrompidas e s caboclas. 
Mas de madrugada, numa carraspana terrvel, importunou-me gemendo palavras desconexas. A cada solavanco do carro de bois que nos conduzia  cidade, levantava a cabea:
- Tudo rico, Seu Paulo. Vai ser uma desgraceis. Agarrava-se a um fueiro de carro e punha-se a vomitar. Depois pegava no sono para acordar agoniado e arrotando:
- Arados, no h nada como os arados. Apareceu-me no dia seguinte, ainda com vestgios do pifo:
- Seu Paulo Honrio, venho consult-lo. O senhor, homem prtico . . .
18
- s ordens.
.-- Creio que j lhe disse que resolvi cultivar a fazenda.
.- Mais ou menos.
- Resolvi. Aquilo como est no convm. Produz bastante, mas poder produzir muito mais. Com arados . . . O senhor no acha? Tenho pensado numa plantao de mandioca 
e numa fbrica de farinha, moderna. Que diz?
Burrice. Estragar dioca!
-  bom.
E no prestei mais ateno ao caso, deixei que ele se entusiasmasse s e fosse discutir o seu projeto no Gurganema,  noite, ao som do violo. Realmente transformou-se. 
Nas pedras do Paraba, com uma garrafa de cachaa, aperreava os companheiros de farra declamando sementes e adubos qumicos. Tornou-se regularmente vaidoso, desejava 
aprender agronomia, e em pouco tempo a cidade inteira conheceu as plantaes, as mquinas, a fbrica de farinha.
- Como vai a lavoura, Padilha?
A princpio respondia, depois compreendeu o ridculo e deu para se esquivar, magoado com as perfdias dos amigos.
- Selvagens! rosnava agentando as batotas no bacar. Vamos para diante.
E a gente ficava sem saber se ele se referia aos parceiros que o pelavam ou aos camaradas que mangavam dele. Procurou-me e desabafou:
- Selvagens! Um empreendimento de vulto, o senhor est vendo, esses burros vm com picuinha. Aqui ningum entende nada, Seu Paulo, isto  um lugar infeliz. Aqui 
s se cogita de safadeza e pulhice.
terra to frtil plantando man
19
Cheio de amargura, abalada a deciso dos primeiros dias, confessou-me que tinha tentado contrair um emprstimo com o Pereira.
- Cavalo! Fiz uma exposio minuciosa, demonstrei cabalmente que o negcio  magnfico. No acreditou, disse que estava no pau da arara. E eu calculei que talvez 
a transao lhe interessasse. Quer desembolsar a uns vinte contos?
Examinei sorrindo aquele bichinho amarelo, de beios delgados e dentes podres.
-  Padilha, gracejei, voc j fechou cigarros? Padilha comprava cigarros feitos.
-  mais cmodo, concordei, mas  mais caro. Pois, Padilha, se voc tivesse fechado cigarros, sabia como  difcil enrolar um milheiro deles. Imagine agora que d 
mal trabalho ganhar dez tostes que fechar um cigarro. E um conto de ris tem mil notas de dez tostes. Vinte contos de ris so vinte mil notas de dez tostes. 
Parece que voc ignora isto. Fala em vinte contos assim com essa carinha, como se dinheiro fosse papel sujo. Dinheiro  dinheiro.
Padilha baixou a cabea e resmungou amuado que sabia contar. Saiu, voltou outras vezes, insistindo. - Eu sou capitalista, homem? Voc quer-me arrasar?
Padilha Bernardo.
- Bobagem! So Bernardo no vale o que um periquito ri. O Pereira tem razo. Seu pai esbagaou a propriedade.
Afinal prometi vagamente: - Est bem. Vou refletir. No outro dia ainda estava refletindo:
- Vamos ver, Padilha. Dinheiro  dinheiro. Passei uma semana nesse jogo, colhendo informa
rezingava e oferecia a hipoteca de So
20
es sobre a idade, a sade e a fortuna do velho Mendona. Quando me decidi, sujeitos prudentes juraram que eu estava doido.
Padilha recebeu os vinte contos (menos o que me devia e os juros), comprou uma tipografia e fundou o Correio de Viosa, folha poltica, noticiosa, independente, 
que teve apenas quatro nmeros e foi substituda pelo Grmio Literrio e Recreativo. Azevedo Gondim elaborou os estatutos, e na primeira sesso de assemblia geral 
Padilha foi aclamado scio benemrito e presidente honorrio perptuo.
Relativamente  agricultura Lus Padilha acuou, esperando uns catlogos de mquinas, que nunca chegaram. Comeou a fugir de mim. Se me encontrava, encolhia-se, fingia-se 
distrado, embicava o chapu. No vencimento da primeira letra adoeceu. Fui visit-lo e achei-o escondido na sala de jantar, jogando gamo com Joo Nogueira. Vendo-me, 
atrapalhou-se tanto que os dedos magros, queimados, de unhas rodas, tremiam chocalhando os dados.
Da em diante encantou-se. Disseram-me que tinha ensebado as canelas para So Bernardo.
- Que estar fazendo por l?
A ltima letra se venceu num dia de inverno. Chovia que era um deus-nos-acuda. De manh cedinho mandei Casimiro Lopes selar o cavalo, vesti o capote e parti. Duas 
lguas em quatro horas. O caminho era um atoleiro sem fim. Avistei as chamins do engenho do Mendona e a faixa de terra que sempre foi motivo de questo entre ele 
e Salustiano Padilha. Agora as cercas de Bom-Sucesso iam comendo So Bernardo.
Dirigi-me  casa-grande, que parecia mais velha e mais arruinada debaixo do aguaceiro. Os muambs no tinham sido cortados. Apeei-me e entrei, ba
2l
tendo os ps com fora, as esporas tinindo. Lus Padilha dormia na sala principal, numa rede encardida, insensvel  chuva que aoitava as janelas e s goteiras 
que alagavam o cho. Balancei o punho da rede. O ex-diretor do Correio de [viosa ergueu-se, atordoado:
- Por aqui? Como vai? - Bem, agradecido.
Sentei-me num banco e apresentei-lhe as letras. Padilha, com um estremecimento de repugnncia, mudou a vista:
- Eu tenho pensado nesse negcio, tenho pensado muito. At perdi o sono. Ontem amanheci com vontade de lhe aparecer, para combinar. Mas no pude. Semelhante chuva 
. . .
- Deixemos a chuva.
- Estou em dificuldades srias. Ia propor uma prorrogao com juros acumulados. Recurso no tenho.
- E a fbrica, os arados?
Lus Padilha respondeu ambiguamente:
- Um inverno deste esculhamba tudo. Recurso no tenho, mas o negcio est garantido. A prorrogao...
- No vale a pena. Vamos liquidar.
- Ora liquidar! J no lhe disse que no posso? Salvo se quiser aceitar a tipografia.
- Que tipografia! Voc  besta?
-  o que tenho. Cada qual se remedeia com o que tem. Devas, n nego, mas como hei de pagar assim de faca no peito? Se me virarem hoje de cabea para baixo, no 
cai do bolso um nquel. stou liso.
- Isso no so maneiras, Padilha. Olhe que as letras se venceram.
22
- Mas se no tenho! Hei de furtar? No posso, est acabado.
- Acabado o qu, meu sem-vergonha! Agora  que vai comear. Tomo-lhe tudo, seu cachorro, deixo-o de camisa e ceroula.
O presidente honorrio perptuo do Grmio Literrio e Recreativo assustou-se:
- Tenha pacincia, Seu Paulo. Com barulho ningum se entende. Eu pago. Espere uns dias. A dvida s  ruim para quem deve.
- No espero nem uma hora. Estou falando srio; e voc com tolices! Despropsito, no! Quer resolver o caso amigavelmente? Faa preo na propriedade.
Lus Padilha abriu a boca e arregalou os olhos mitdos. So Bernardo era para ele uma coisa intil, mas de estimao: ali escondia a amargura e a quebradeira, matava 
passarinhos, tomava banho no riacho e dormia. Dormia demais, porque receava encontrar o Mendona.
- Faa o preo.
- Aqui entre ns, murmurou o desgraado, sempre desejei conservar a fazenda.
- Para qu? So Bernardo  uma pinia. Falo como amigo. Sim senhor, como amigo. No tenciono ver um camarada com a corda no pescoo. Esses bacharis tm fome canina, 
e se eu mandar o Nogueira tocar fogo na binga, voc fica de saco nas costas. Despesa muita, Padilha. Faa preo.
Debatemos a transao at o fusco-fusco. Para comear, Lus Padilha pediu oitenta contos.
- Voc est maluco? Seu pai dava isto ao Fidlis por cinqenta. E era caro. Hoje que o engenho caiu, o gado dos vizinhos rebentou as porteiras, as casas
23
so taperas, o Mendona vai passando as unhas nos babados...
Perdi o flego. Respirei e ofereci trinta contos. Ele baixou para setenta e mudamos de conversa. Quando tornamos  barganha, subi a trinta e dois. Padilha fez abate 
para sessenta e cinco e jurou por Deus do cu que era a ltima palavra. Eu tambm asseverei que no pingava mais um vintm, porque no valia. Mas lancei trinta e 
quatro. Padilha, por camaradagem, consentiu em receber sessenta. Discutimos duas horas, repetindo os mesmos embelecos, sem nenhum resultado.
Resolvi discorrer sobre as minhas viagens ao serto. Depois, com indiferena, insisti nos trinta e quatro contos e obtive modificao para cinqenta e cinco. Mostrei 
generosidade: trinta e cinco. Padilha endureceu nos cinqenta e cinco, e eu injuriei-o, declarei que o velho Salustiano tinha deitado fora o dinheiro gasto com ele, 
no colgio. Cheguei a amealo com as mos. Recuou para cinqenta. Avancei a quarenta e afirmei que estava roubando a mim mesmo. Nesse ponto cada um puxou para o 
seu lado. Finca-p. Chamei em meu auxlio o Mendona, que engolia a terra, o oficial de justia, a avaliao e as custas. O infeliz, apavorado, desceu a quarenta 
e oito. Arrependi-me de haver arriscado quarenta: no valia, era um roubo. Padilha escorregou a quarenta e cinco. Firmei-me nos quarenta. Em seguida ro a corda:
- Muito por baixo. Pindaba.
Descontado o que ele me devia, o resto seria dividido em letras. Padilha endoideceu: chorou, entregou-se a Deus e desmanchou o que tinha feito. Viesse o advogado, 
viesse a justia, viesse a polcia, vies
24
se o diabo. Tomassem tudo. Um fumo para o acordo! Um fumo para a lei!
- Eu me importo com lei? Um fumo!
Tinha meios. Perfeitamente, no andava com a cara para trs. Tinha meios. Ia  tribuna da imprensa, reclamar os seus direitos, protestar contra o esbulho. Afetei 
comiserao e prometi pagar com dinheiro e com uma casa que possua na rua. Dez contos. Padilha botou sete contos na casa e quarenta e trs em So Bernardo. Arranquei-lhe 
mais dois contos: quarenta e dois pela propriedade e oito pela casa. Arengamos ainda meia hora e findamos o ajuste.
Para evitar arrependimento, levei Padilha para a cidade, vigiei-o durante a noite. No outro dia, cedo, ele meteu o rabo na ratoeira e assinou a escritura. Deduzi 
a dvida, os juros, o preo da casa, e entreguei-lhe sete contos e quinhentos e cinqenta milris. No tive remorsos.
25
Captulo cinco
- O senhor andou mal adquirindo a propriedade sem me consultar, gritou Mendona do outro lado da cerca.
- Por qu? O antigo proprietrio no era maior? - Sem dvida, respondeu Mendona avanando as barbas brancas e o nariz curvo. Mas o senhor devia ter-se informado 
antes de comprar questo.
- Eu por mim no desejo questionar. Creio que nos entendemos.
- Depende do senhor. Os limites atuais so provisrios, j sabe?  bom esclarecermos isto. Cada qual no que  seu. No vale a pena consertar a cerca. Eu vou derrub-la 
para acertarmos onde deve ficar.
Ponderei ao velho Mendona que ele j tinha encolhido muito as terras de So Bernardo. Pedi-lhe que mostrasse os seus papis. No sendo possvel acordo, era melhor 
vir o advogado e vir o agrimensor.
- timo! Arranjava-se com os tabelies e metia-me no bolso. Mas eu no vou nisso. Derruba-se a cerca.
Contei rapidamente os caboclos que iam com ele,
stwws l -ll -iY -s "Altas! V -Ai ;
contei os meus e asseverei que a cerca no se derrubava. Explicaes, com bons modos, sim; gritos no.
E abrandei, meio arrependido, porque no me convinha uma briga com Mendona, homem reimoso. O que eu no queria era baixar a crista logo no primeiro encontro.
Casimiro Lopes deu um passo; toquei-lhe no ombro e ele recuou. Mendona compreendeu a situao, passou a tratar-me com amabilidade excessiva. Paguei na mesma moeda, 
e como ele precisasse de uns cedros que havia perto de Bom-Sucesso, oferecilhe os cedros. Recusou, props troc-los por novilhas zebus. Declarei que no tencionava 
criar gado indiano, falei com entusiasmo sobre o limosino e o schwitz. Mendona desdenhava as raas finas, que comem demais e no agentam o carrapato: engordava 
garrotes para aougue.
Insisti no oferecimento da madeira, e ele estremeceu. A nossa conversa era seca, em voz rpida, com sorrisos frios. Os caboclos estavam desconfiados. Eu tinha o 
corao aos baques e avaliava as conseqncias daquela falsidade toda. Mendona coava a barba.
- Relativamente aos limites, julgo que podemos resolver isso depois, com calma.
- Perfeitamente, concordou Mendona. Despedimo-nos. Continuei a estirar o arame farpado e a substituir os grampos velhos por outros novos. Mendona, de longe, ainda 
se virou, sorrindo e pregando-me os olhos vermelhos.
A tarde, quando voltei para casa, Casimiro Lopes acompanhou-me, carrancudo. Como eu no dissesse nada, tossiu, parou. Encostei-me a um limoeiro e espalhei idias 
ruins que me perseguiam:
28
- Amanh traga quatro homens, venha aterrar este charco. E limpe aqui o riacho para as guas no entrarem na vrzea.
- S?
Pensei que, em vez de aterrar o charco, era melhor mandar chamar Mestre Caetano para trabalhar na pedreira. Mas no dei contra-ordem, coisa prejudicial a um chefe.
- S? tornou a perguntar Casimiro Lopes. Apanhei o pensamento que lhe escorregava pelos cabelos emaranhados, pela testa estreita, pelas mas enormes e pelos beios 
grossos. Talvez ele tivesse razo. Era preciso mexer-me com prudncia, evitar as moitas, ter cuidado com os caminhos. E aquela casa esburacada, de paredes cadas 
...
Decidi convidar Mestre Caetano e cavouqueiros. Diabo! Agitei a cabea e afastei um plano mal esboado.
- Por enquanto, s.
29
ui,
Captulo seis
Naquele segundo ano houve dificuldades medonhas. Plantei mamona e algodo, mas a safra foi ruim, os preos baixos, vivi meses aperreado, vendendo macacos e fazendo 
das fraquezas foras para no ir ao fundo. Trabalhava danadamente, dormindo pouco, levantando-me s quatro da manh, passando dias ao sol,  chuva, de faco, pistola 
e cartucheira, comendo nas horas de descanso um pedao de bacalhau assado e um punhado de farinha.  noite, na rede, explicava pormenores do servio a Casimiro Lopes. 
Ele acocorava-se na esteira e, apesar da fadiga, ouvia atento. s vezes Tubaro ladrava l fora e ns aguvamos o ouvido.
Uma feita distinguimos passos em redor da casa. Olhei por uma fresta na parede. A escurido era grande, mas percebi um vulto. E as pisadas continuaram. O cachorro 
latiu e rosnou.
- Mais esta! cochichou Casimiro Lopes.
No dia seguinte visitei Mendona, que me recebeu inquieto. Conversamos sobre tudo, especialmente sobre votos. Dirigi amabilidades s filhas dele, duas solteironas, 
e lamentei a morte da mulher, excelente pessoa, caridosa, amiga de servir, sim senhor. Men
31
dona, espantado, perguntou onde eu tinha visto Dona Alexandrina.
- Faz tempo. Fui morador do velho Salustiano. Arrastei a enxada, no eito.
As moas acanharam-se mas o pai achou que eu procedia com honestidade revelando francamente a minha origem. Depois queixou-se dos vizinhos (nenhum se dava com ele).
- H por a umas pestes que principiaram como o senhor e arrotam importncia. Trabalhar no  desonra. Mas se eu tivesse nascido na poeira, por que havia de negar?
Tentou envergonhar-me:
- Trabalhador alugado, hem? No se incomode. O Fidlis, que hoje  senhor de engenho, e conceituado, furtou galinhas.
Enquanto ele tesourava o prximo, observei-o. Pouco a pouco ia perdendo os sinais de inquietao que a minha presena lhe tinha trazido. Parecia  vontade catando 
os defeitos dos vizinhos e esquecido do resto do mundo, mas no sei se aquilo era tapeao. Eu me insinuava, discutindo eleies.  possvel, porm, que no conseguisse 
engan-lo convenientemente e que ele fizesse comigo o jogo que eu fazia com ele. Sendo assim, acho que representou bem, pois cheguei a capacitar-me de que ele no 
desconfiava de mim. Ou ento quem representou bem fui eu, se o convenci de que tinha ido ali politicar. Se ele pensou isso, era doido. Provavelmente no pensou. 
Talvez tenha pensado depois de iludirse e julgar que estava sendo sincero. Foi o que me sucedeu. Repetindo as mesmas palavras, os mesmos gestos, e ouvindo as mesmas 
histrias, acabei gostando do proprietrio de Bom-Sucesso.
32
Continuava a observ-lo, mas a observao era instintiva. Despertou. Bocejando, mostrando os caninos amarelos e pontudos, Mendona bateu palmas e esfarelou um mosquito. 
Mosquito como bala! Tinha passado uma noite horrvel.
Respondi que havia dormido como pedra. Os pntanos em So Bernardo estavam aterrados, no restava um mosquito para remdio. Arrependi-me de ter falado precipitadamente. 
Mendona examinou-me de travs, e suponho que no ficou satisfeito. Tornou a referir-se  noite de insnia, e eu repeti que tinha dormido. Pouco seguro, com a cara 
mexendo. Naturalmente ele compreendeu que era mentira.
Cada um de ns mentiu estupidamente. Empurrei de novo na palestra a minha vida de trabalhador. Resultado medocre: as moas cochilaram e Mendona estirou o beio.
Um caboclo mal-encarado entrou na sala. Mendona franziu a testa. Quis despedir-me; receei, porm, que o momento fosse imprprio e conservei-me sentado, esperando 
modificar a impresso desagradvel que produzia. As moas me achavam maador, evidentemente.
- Se o inverno vindouro for como este, desgraa-se tudo:. isto vira lama e no nasce um p de mandioca.
- Decerto, concordou Mendona, visivelmente aporrinhado com o caboclo, que me olhava tranqilo, sem levantar a cabea.
- Pois at logo, exclamei de chofre. A eleio domingo, hem? Entendido. Mato um... (Ia dizer um boi. Moderei-me: todo o mundo sabia que eu tinha meia dzia de eleitores.) 
um carneiro. Um carneiro  bastante, no? Est direito. At domingo.
33
E sa, descontente. Creio que foi mais ou menos o que aconteceu. No me lembro com preciso. Atravessei o ptio e entrei no atalho que ia ter a So Bernardo. Que 
vergonha! Tomar a terra dos outros e deix-la com aquelas veredas indecentes, cheias de camalees, o mato batendo no rosto de quem passava!
Percorri a zona da encrenca. A cerca ainda estava no ponto em que eu a tinha encontrado no ano anterior. Mendona forcejava por avanar, mas continhase; eu procurava 
alcanar os limites antigos, inutilmente. Discrdia sria s esta: um moleque de So Bernardo fizera mal  filha do mestre de acar de Mendona, e Mendona, em 
conseqncia, metera o alicate no arame; mas eu havia consertado a cerca e arranjado o casamento do moleque com a cabrochinha.
Dei uma vista no algodoal e encaminhei-me ao paredo do aude. Poucos trabalhadores.
Subi a colina. Tinham-se concludo os alicerces desta nossa casa, as paredes comeavam a elevar-se. De repente um tiro. Estremeci. Era na pedreira, que Mestre Caetano 
escavacava lentamente, com dois cavouqueiros. Outro tiro, ruim: pedra mida voando.
Quando se acabariam aqueles servios moles? Desgraadamente faltavam-me recursos para ataclos firme. Assim mesmo, lidando com pessoal escasso, s vezes na sexta-feira 
eu no sabia onde buscar dinheiro para pagar as folhas no sbado.
Fiz algumas perguntas ao pedreiro. Um pedreiro s. As paredes tinham um metro de altura. Se eu empregasse muitos operrios, as obras sairiam mais baratas. O paredo 
do aude no ia para a frente, acuava. E a pedreira, onde uns vultos miudinhos se
34
moviam, era como se em seis meses de trabalho no tivesse sido desfalcada.
Um carro de bois passou l embaixo; outro carro de bois veio vindo, carregado de tijolos.
Onde andaria a velha Margarida? Seria bom encontrar a velha Margarida e traz-la para So Bernardo. Devia estar pegando um sculo, pobre da negra.
Demorei-me at que os serventes lavaram as colheres e guardaram as ferramentas. Fiquei s. Os homens da lavoura e os do aude foram debandando tambm.
Mais tiros na pedreira, os ltimos. Pensei no Mendona. Canalha. Do lado de c da cerca o algodo pintava, a mamona crescia nos aceiros da roa; do lado de l, sap 
e espinho. Quantas braas de terra aquele malandro tinha furtado! Felizmente estvamos em paz. Aparentemente. De qualquer forma era-me necessrio caminhar depressa.
Desci a ladeira e fui jantar. Enquanto jantava, falei em voz baixa a Casimiro Lopes, a princpio com panos mornos, depois delineando um projeto. Casimiro Lopes desviou-se 
dos panos mornos e colaborou no projeto.
Deixei o negcio entabulado, fechei as portas e escrevi algumas cartas aos bancos da capital e ao governador do Estado. Aos bancos solicitei emprstimos, ao governador 
comuniquei a instalao prxima de numerosas indstrias e pedi a dispensa de imposto sobre os maquinismos que importasse. A verdade  que os emprstimos eram improvveis 
e eu no imaginava a maneira de pagar os maquinismos. Mas havia-me habituado a consider-los meio comprados.
Em seguida consultei
o Aprendizado agrcola da 35
Satuba relativamente  possvel aquisio de um bezerro limosino.
Quando ia terminando, ouvi pisadas em redor da casa. Levantei-me e olhei pela fresta. L estava um tipo dando estalos com os dedos, enganando o Tubaro. Reparando, 
julguei reconhecer o fregus carrancudo que tinha entrado na sala do Mendona. Abandonei a espreita e chamei Casimiro Lopes, que me substituiu. Deitei-me pensando 
em Mestre Caetano e na pedreira. Marretas, alavancas, ao para broca, plvora, estopim.
- Gente de l, murmurou lanando o punho da rede. - Com certeza.
No outro dia, sbado, matei o carneiro para os eleitores. Domingo  tarde, de volta da eleio, Mendona recebeu um tiro na costela mindinha e bateu as botas ali 
mesmo na estrada, perto de BomSucesso. No lugar h hoje uma cruz com um brao de menos.
Na hora do crime eu estava na cidade, conversando com o vigrio a respeito da igreja que pretendia levantar em So Bernardo. Para o futuro, se os negcios corressem 
bem.
- Que horror! exclamou Padre Silvestre quando chegou a notcia. Ele tinha inimigos?
- Se tinha! Ora se tinha! Inimigo como carrapato. Vamos ao resto, Padre Silvestre. Quanto custa um sino?
Casimiro Lopes ba
36
Captulo sete
Por esse tempo encontrei em Macei, chupando uma barata na Gazeta do Brito, um velho alto, magro, curvado, amarelo, de suas, chamado Ribeiro. Via-se perfeitamente 
que andava com fome. Simpatizei com ele e, como necessitava um guardalivros, trouxe-o para So Bernardo. Dei-lhe alguma confiana e ouvi a sua histria, que aqui 
reproduzo pondo os verbos na terceira pessoa e usando quase a linguagem dele.
Seu Ribeiro tinha setenta anos e era infeliz, mas havia sido moo e feliz. Na povoao onde ele morava os homens descobriam-se ao avist-lo e as mulheres baixavam 
a cabea e diziam:
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, Seu Major.
Quando algum recebia cartas, ia pedir-lhe a traduo delas. Seu Ribeiro lia as cartas, conhecia os segredos, era considerado e major.
Se dois vizinhos brigavam por terra, Seu Ribeiro chamava-os, estudava o caso, traava as fronteiras e impedia que os contendores se grudassem.
Todos acreditavam na sabedoria do Major. Com efeito, Seu Ribeiro no era inocente: decorava leis, antigas, relia jomais, antigos, e,  luz da candeia
37
de azeite, queimava as pestanas sobre livros que encerravam palavras misteriosas de pronncia difcil. Se se divulgava uma dessas palavras esquisitas, Seu Ribeiro 
explicava a significao dela e aumentava o vocabulrio da povoao.
Os outros homens, sim, eram inocentes. Acontecia s vezes que uma dessas criaturas inocentes aparecia morta a cacete ou a faca. Seu Ribeiro, que era justo, procurava 
o matador, amarrava-o, levava-o para a cadeia da cidade. E a famlia do defunto ficava sob a proteo do Major. Tambm acontecia que uma sujeitinha comeava a chorar 
e acabava confessando que estava pejada. Seu Ribeiro descobria o sedutor, chamava o padre, e o casamento se realizava na capela da povoao. Nascia um menino e 
Seu Ribeiro era o padrinho. O Major decidia, ningum apelava. A deciso do Major era um prego.
No havia soldados no lugar, nem havia juiz. E como o vigrio residia longe, a mulher de Seu Ribeiro rezava o tero e contava histrias de santos s crianas.  
possvel que nem todas as histrias fossem verdadeiras, mas as crianas daquele tempo no se preocupavam com a verdade.
Seu Ribeiro tinha famlia pequena e casa grande. A casa estava sempre cheia. Os algodoais do Major eram grandes tambm. Nas colheitas a populao corria para eles. 
E os pretos no sabiam que eram pretos, e os brancos no sabiam que eram brancos.
Na verdade Seu Ribeiro infundia respeito. Se havia barulho na feira, levantava o brao e gritava: - Quem for meu me acompanhe.
E a feira se desmanchava, o barulho findava, todo o mundo seguia o Major porque todo o mundo era do Major.
38
Nas noites de So Joo uma fogueira enorme iluminava a casa de Seu Ribeiro. Havia fogueiras diante das outras casas, mas a fogueira do Major tinha muitas carradas 
de lenha. As moas e os rapazes andavam em redor dela, de brao dado. Assava-se milho verde nas brasas e davam-se tiros medonhos de bacamarte. O Major possua um 
bacamarte, mas o bacamarte s se desenferrujava pelos festejos de So Joo.
Ora, essas coisas se passaram antigamente. Mudou tudo. Gente nasceu, gente morreu, os afilhados do Major cresceram e foram para o servio militar, em estrada de 
ferro.
O povoado transformou-se em vila, a vila transformou-se em cidade, com chefe poltico, juiz de direito, promotor e delegado de polcia.
Trouxeram mquinas e a bolandeira parou.
Veio o vigrio, que fechou uma igreja bonita. As histrias na memria das crianas. Chegou o mdico. No acreditava nos
mulher de seu Ribeiro entristeceu, emagreceu e finou-se.
O advogado abriu consultrio, a sabedoria do Major encolheu-se e surgiram no foro numerosas questes.
Efetivamente a cidade teve um progresso rpido. Muitos homens adotaram gravatas e profisses desconhecidas. Os carros de bois deixaram de chiar nos caminhos estreitos. 
O automvel, a gasolina, a eletricidade e o cinema. E impostos.
As moas e os rapazes no rodeavam, de brao dado, as fogueiras de So Joo: danavam o tango, o frevo.
do Major
a capela e construiu dos santos morreram
santos. A
39
Um dia Seu Ribeiro reconheceu que vivia numa casa grande demais. Vendeu-a e adquiriu outra, pequena. Como havia agora liberdade excessiva, a autoridade dele foi 
minguando, at desaparecer.
Seu Ribeiro tinha um filho, que jogava futebol, e uma filha, que usava fitas, muitas fitas. Acharam o lugar atrasado e fugiram. Seu Ribeiro escondeu-se, cheio de 
vergonha. Amofinou-se uma semana, desfez-se dos cacarecos e foi procurar os filhos. No os encontrou: andavam por a, ela pelas fbricas, ele no Exrcito.
Seu Ribeiro enraizou-se na capital. Conheceu enfermarias de indigentes, dormiu nos bancos dos jardins, vendeu bilhetes de loterias, tornou-se bicheiro e agente de 
sociedades ratoeiras. Ao cabo de dez anos era gerente e guarda-livros da Gazeta, com cento e cinqenta mil-ris de ordenado, e pedia dinheiro aos amigos.
Quando o velho acabou de escorrer a sua narrativa, exclamei:
- Tenho a impresso de que o senhor deixou as pernas debaixo de um automvel, Seu Ribeiro. Por que no andou mais depressa?  o diabo.
40
Captulo oito
O caboclo mal-encarado que encontrei um dia em casa do Mendona tambm se acabou em desgraa. Uma limpeza. Essa gente quase nunca morre direito. Uns so levados 
pela cobra, outros pela cachaa, outros matam-se.
Na pedreira perdi um. A alavanca soltou-se da pedra, bateu-lhe no peito, e foi a conta. Deixou viva e rfos midos. Sumiram-se: um dos meninos caiu no fogo, as 
lombrigas comeram o segundo, o ltimo teve angina e a mulher enforcou-se.
Para diminuir a mortalidade e aumentar a produo, proibi a aguardente.
Concluiu-se a construo da casa nova. Julgo que no preciso descrev-la. As partes principais apareceram ou aparecero; o resto  dispensvel e apenas pode interessar 
aos arquitetos, homens que provavelmente no lero isto. Ficou tudo confortvel e bonito. Naturalmente deixei de dormir em rede. Comprei mveis e diversos objetos 
que entrei a utilizar com receio, outros que ainda hoje no utilizo, porque no sei para que servem.
Aqui existe um salto de cinco anos, e em cinco anos o mundo d um bando de voltas.
Ningum imaginar que, topando os obstculos
41
mencionados, eu haja procedido invariavelmente com segurana e percorrido, sem me deter, caminhos certos. No senhor, no procedi nem percorri. Tive abatimentos, 
desejo de recuar; contornei dificuldades: muitas curvas. Acham que andei mal? A verdade  que nunca soube quais foram os meus atos bons e quais foram os maus. Fiz 
coisas boas que me trouxeram prejuzo; fiz coisas ruins que deram lucro. E como sempre tive a inteno de possuir as terras de So Bernardo, considerei legtimas 
as aes que me levaram a obt-las.
Alcancei mais do que esperava, merc de Deus. Vieram-me as rugas, j se v, mas o crdito, que a princpio se esquivava, agarrou-se comigo, as taxas desceram. E 
os negcios desdobraram-se automaticamente. Automaticamente. Difcil? Nada! Se eles entram nos trilhos, rodam que  uma beleza. Se no entram, cruzem os braos. 
Mas se virem que esto de sorte, metam o pau: as tolices que praticarem viram sabedoria. Tenho visto criaturas que trabalham demais e no progridem. Conheo indivduos 
preguiosos que tm faro: quando a ocasio chega, desenroscam-se, abrem a boca e engolem tudo.
Eu no sou preguioso. Fui feliz nas primeiras tentativas e obriguei a fortuna a ser-me favorvel nas seguintes.
Depois da morte do Mendona, derrubei a cerca, naturalmente, e levei-a para alm do ponto em que estava no tempo de Salustiano Padilha. Houve reclamaes.
- Minhas senhoras, Seu Mendona pintou o diabo enquanto viveu. Mas agora  isto. E quem no gostar, pacincia, v  justia.
Como a justia era cara, no foram  justia. E
42
eu, o caminho aplainado, invadi a terra do Fidlis, paraltico de um brao, e a dos Gama, que pandegavam no Recife, estudando direito. Respeitei o engenho do Dr. 
Magalhes, juiz.
Violncias midas passaram despercebidas. As questes mais srias foram ganhas no foro, graas s chicanas de Joo Nogueira.
Efetuei transaes arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e no prestei ateno aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas. Iniciei a 
pomicultura e a avicultura. Para levar os meus produtos ao mercado, comecei uma estrada de rodagem. Azevedo Gondim comps sobre ela dois artigos, chamou-me patriota, 
citou Ford e Delmiro Gouveia. Costa Brito tambm publicou uma nota na Gazeta, elogiando-me e elogiando o chefe poltico local. Em conseqncia mordeu-me cem mil-ris.
No obstante essa propaganda, as dificuldades surgiram. Enquanto estive esburacando So Bernardo, tudo andou bem; mas quando varei quatro ou cinco propriedades, 
caiu-me em cima uma nuvem de maribondos. Perdi dois caboclos e levei um tiro de emboscada. Ferimento leve, tenho a cicatriz no ombro. Exasperado, mandei mais cem 
mil-ris a Costa Brito e procurei Joo Nogueira e Gondim:
- Desorientem essas cavalgaduras. Olhem que estou fazendo obra pblica e no cobro imposto.  uma vergonha. O municpio devia auxiliar-me. Fale com o prefeito, Dr. 
Nogueira. Veja se ele me arranja umas barricas de cimento para os mata-burros.
No recebi o cimento, mas constru os mata-burros. Como os meus planos eram volumosos e adotei processos irregulares, as pessoas comodistas julgaram-me doido e deixaram-me 
em paz.
43
l
Tive por esse tempo a visita do governador do Estado. Fazia trs anos que o aude estava concludo burrice, na opinio do Fidlis.
- Para que aude onde corre um riacho que no seca?
Realmente parecia no servir. Mas saiu dali, numa levada, a gua que foi movimentar as mquinas do descaroador e da serraria.
O governador gostou do pomar, das galinhas orpington, do algodo e da mamona, achou conveniente o gado limosino, pediu-me fotografias e perguntou onde ficava a escola. 
Respondi que no ficava em parte nenhuma. No almoo, que teve champanhe, o Dr. Magalhes gemeu um discurso. S. Ex.a tornou a falar na escola. Tive vontade de dar 
uns apartes, mas contive-me.
Escola! Que me importava que os outros soubessem ler ou fossem analfabetos?
- Esses homens de governo tm um parafuso frouxo. Metam pessoal letrado na apanha da mamona. Ho de ver a colheita.
Levantando-se da mesa, Padilha, de olho vidrado, pediu-me em voz baixa cinqenta mil-ris.
- Nem um tosto.
E fui mostrar ao ilustre hspede a serraria, o descaroador e o estbulo. Expliquei em resumo a prensa, o dnamo, as serras e o banheiro carrapaticida. De repente 
supus que a escola poderia trazer a benevolncia do governador para certos favores que eu tencionava solicitar.
- Pois sim senhor. Quando V. Ex.a vier aqui outra vez, encontrar essa gente aprendendo cartilha. Mais tarde, enquanto dos alicerces da igreja olhvamos a paisagem, 
chamei de parte o advogado:
-  Dr. Nogueira, mande-me c o Padilha ama
44
nh. Preciso falar com ele, mas esse desgraado nem se agenta nas pernas. No se esquea, ouviu? Amanh, quando ele curtir o pileque.
S. Ex.a despediu-se e aquela data ficou clebre. Os automveis rolaram na estrada. Olhando a nuvem de poeira que levantavam, esfreguei as mos:
- Com os diabos! Esta visita me traz uma-penca de vantagens. Um capital. Quero ver quanto rende. A verdade  que, aparentando segurana, eu andava assustado com 
os credores. Ia bem, sem dvida, o ativo era superior ao passivo, mas se aqueles malvados quisessem, capavam-me. Agora os receios diminuam. A escola seria um capital. 
Os alicerces da igreja eram tambm capital.
Continuei a esfregar as mos. Com os diabos!
E decidi proteger as Mendona. A minha prosperidade comeara depois da morte do pai delas. Naquele tempo algumas braas de massap valiam muito para mim. Ninharia, 
o massap.
Senti pena das Mendona. Mandaria no dia seguinte dar uma limpa no algodo de Bom-Sucesso, enfezado, coberto de mato. Muito por baixo, as Mendona. O pai era safado, 
mas que culpa tinham as pobres? Resolvi abrir o olho para que vizinhos sem escrpulos no se apoderassem do que era delas. Mulheres quase nunca se defendem. Pois 
se qualquer daqueles patifes tentasse prejudic-las, estava embrulhado comigo.
45
Captulo nove
No outro dia, de volta do campo, encontrei no alpendre Joo Nogueira, Padilha e Azevedo Gondim elogiando umas pernas e uns peitos. Elevaram a conversa.
- Mulher educada, afirmou Joo Nogueira. Instruda.
- E sisuda, acrescentou Azevedo Gondim. Padilha no achou qualidade que se comparasse aos peitos e s pernas.
- Realmente, murmurou esgaravatando as unhas com um fsforo.
Joo Nogueira lembrou-se de que era homem de responsabilidade. Bacharel, mais de quarenta anos, uma calvcie respeitvel. As vezes metia-se em badernas. Mas com 
os clientes s negcio. E a mim, que lhe dava quatro contos e oitocentos por ano para ajudar-me com leis a melhorar So Bernardo, exibia idias corretas e algum 
pedantismo. Eu tratava-o por doutor: no poderia trat-lo com familiaridade. Julgava-me superior a ele, embora possuindo menos cincia e menos manha. At certo ponto 
parecia-me que as habilidades dele mereciam desprezo. Mas eram teis e havia entre ns muita considerao. - Acompanhamos o nosso Padilha, disse No
47
r'II
gueira. Viemos andando. Como o passeio era agradvel, com a fresca da tarde, cheguei c, para consult-lo.
Convidei-o silenciosamente olhando uma janela por onde se viam, sobre livros de escriturao, as suas brancas e os culos de Seu Ribeiro. Entramos no escritrio. 
Estvamos em princpio do ms. Abriu o cofre e entreguei ao advogado duas pelegas de duzentos. Seu Ribeiro tremeu no borrador um lanamento circunstanciado e afastou-se 
discretamente. Joo Nogueira sentou-se, passou o recibo, tirou papis da pasta e explicou-me o estado de vrios processos. Logo no primeiro convenci-me de que os 
quatrocentos mil-ris tinham sido gastos com proveito. Os outros tambm iam em bom caminho. O tabelio  que no inspirava confiana. E o oficial de justia. Arame.
- Claro. Faa promessas, Dr. Nogueira. No adiante um vintm. Prometa. O pagamento no fim, se eles forem honestos.
Inteirei-me de particularidades pouco interessantes, dei umas instrues a Seu Ribeiro e voltamos ao alpendre, onde Lus Padilha tinha recomeado com Azevedo Gondim 
os elogios s pernas.
- De quem so as pernas?
- Da Madalena, respondeu Gondim. - Quem?
- Uma professora. No conhece? Bonita. - Educada, atalhou Joo Nogueira.
- Bonita, disse outra vez Gondim. Uma nha, a de uns trinta anos.
- Quantos? perguntou Joo Nogueira. - Uns trinta, pouco mais ou menos.
- Vinte, se tanto.
-  porque voc no viu de perto, interrompeu
louri
48
Gondim. Se tivesse visto, no sustentava semelhante barbaridade.
- Como no? Vi muito de perto, em casa do Magalhes, no aniversrio da Marcela. Tem vinte. -  porque voc viu  noite. De manh  diferente. Tem trinta.
Padilha, observando com tristeza as novilhas que pastavam no capim-gordura,  margem do riacho, e o aude, onde patos nadavam, suspirou e props vinte e cinco:
-  o que ela tem. Vinte e cinco.
Estirei os braos, fatigado de haver passado o dia inteiro ao sol, brigando com os trabalhadores.
- Muito bem, Padilha, vinte e cinco para acabar. Vocs jantam, no jantam? Voltam no automvel. Preciso falar com voc, Padilha.
Lus Padilha tinha recebido o recado e desde a vspera remexia o quengo, curioso.
-  isto. Creio que estou com vontade de abrir uma escola.
- Magnfico! exclamou Azevedo Gondim com um sorriso que lhe achatou mais o nariz. Aceitou o meu conselho, hem? No h nada como a instruo.
O advogado passou os dedos pela testa e pressagiou, distrado, que a escola teria grande utilidade. Encolhi os ombros:
- Sei l! No acredito. Tanto que resolvi aproveitar o Padilha. Est claro que se poderia arranjar uma boa escola rural, com ensino razovel de agricultura e pecuria. 
Mas onde vou encontrar tcnicos? E que dinheiro! Por enquanto  apenas um bocado de leitura, escrita e conta. Voc estar em condies de encarregar-se disso, Padilha?
Lus Padilha informou-se do ordenado e declarou que,vivia cheio de ocupaes.
49
Devagarinho, foram clareando as lmpadas da iluminao eltrica. Luzes tambm nas casas dos moradores. Se aqueles desgraados que se apertavam l embaixo, ao p 
das cercas de Bom-Sucesso, tinham nunca pensado em alumiar-se com eletricidade! Luz at meia-noite. Conforto! E eu pretendia instalar telefones.
Casimir Lopes aproximou-se, capengando.
- Vamos jantar. Mandei cham-lo porque julguei que voc necessitasse, Padilha. Desde que est ocupado, ponto final. Vamos para  mesa.
Durante o jantar Azevedo Gondim referiu o motivo da sua visita: tinha-se descoberto o paradeiro da velha Margarida.
- Queest dizendo! E voc calado, Gondim! Azevedo Gondim encheu o copo:
- Mora em Jacar-dos-Homens. - Onde  isso?
- Em Po-de-Acar. Recebi hoje uma carta. Os sinais, a idade, a cor, tudo confere. Vive com uma famlia que faz queijos. J retirei o anncio do Cruzeiro.
- Est direito. Vocs conhecem algum em Pode-Acar? Conhece algum em Po-de-Acar, Seu Ribeiro?
No conheciam.
-  Gondim, j que tomou a empreitada, pea ao vigrio que escreva ao Padre Soares sobre a remessa da negra. Acho que acompanho vocs, vou falar a Padre Silvestre. 
 conveniente que a mulher seja remetida com cuidado, para no se estragar na viagem. E quando ela chegar, pode encomendar as miangas, Gondim. Como se chamam?
- Clichs. Clichs e vinhetas.
50
- Pois sim. Mande buscar os clichs e as vinhetas, quando tivermos a velha.
- Estava aqui pensando na Padilha.
- E eu. Tirou-me a palavra da boca, atalhou Joo Nogueira. Convide a Madalena, Seu Paulo Honrio. Excelente aquisio, mulher instruda.
- At lhe enfeita a casa, Seu Paulo, gritou Azevedo Gondim.
- Tolice. Ando l procurando bibels?
Padilha, meio desconcertado, rosnou, agarrandose ao osso:
- Eu no disse que no aceitava. O que disse  que tenho muitas ocupaes. Mas perguntei qual  o ordenado.
Entretido em desarticular uma asa de galinha, no respondi.
- Perguntei qual  o ordenado, tornou Padilha timidamente.
Coitado! To mido, to chato, parecia um percevejo.
- Conforme. Nem sei quanto voc vale. Uns cem mil-ris por ms. Ponhamos cento e cinqenta a ttulo de experincia. Casa, mesa, boas conversas, cento e cinqenta 
mil-ris por ms e oito horas de trabalho por dia. Convm? Mas aviso logo: servio  servio, e aqui ningum bebe. Aqui s bebem os hspedes.
- Perfeitamente, mastigou Padilha encabulado. Vou refletir. Quanto  bebida dispenso recomendao, que no bebo. Bebo nas refeies, nem sempre, e l uma vez ou 
outra um clice, por insistncia de amigos. Talvez aceite.
Acabamos o jantar em silncio. Maria das Dores
escola, murmurou
51
trouxe o caf e retirou os pratos. Abri a caixa de charutos, acendi o cachimbo e fomos para o salo. Seu Ribeiro desdobrou a Gazeta. Instintivamente escondi-me num 
canto, afastado das portas abertas. No consegui evitar uma janela. Quis fech-la, mas sosseguei: Casimiro Lopes, que vigiava a casa, sentou-se numa das paredes 
comeadas da igreja, acomodou o rifle entre as pernas e ficou imvel, farejando.
- Vai o nosso Padilha voltar a So Bernardo, disse Joo Nogueira.
- E concluir o livro, acrescentou Azevedo Gondim. Voc, com a vida regularizada, escreve  bea, Padilha.
- Qual nada!
Envergonha-se de compor uns contos que publica no Cruzeiro, com pseudnimo, e quando lhe falam neles, imagina que  esculhambao e atrapalha-se. Aprumou-se, lanou 
um olhar amargurado s cadeiras, ao soalho, s lmpadas:
- O ordenado  pequeno, no chega para os livros. Mas venho. Venho porque se trata de instruo e tenho embocadura para o magistrio.
Seu Ribeiro virava a folha do jornal, movia os beios, s vezes gesticulava.
Indecente, aquela Gazeta. E o Brito, a pedir dinheiro, estava-se tornando insuportvel.
Azevedo Gondim, cansado por duas lguas a p, bocejou e espreguiou-se:
- Ento os candidatos do dos, hem?
Eleio municipal.
- No interessa. Bico de pena!
Torcidas de verdade, sim: mandava os meus eleitores s umas e recebia em troca os agradecimentos
Pereira so derrota
52
do partido. Tricazinhas locais, no. Se o Pereira tinha pisado em casca de banana, pior para ele: caa, vinha outro e arranjava-se nova chapa.
- Bem-feito, resmungou Padilha, que no perdoava ao Pereira ter desconfiado dos seus projetos de agricultura. Aquilo  um jumento.
- Que injustia! bradou Joo Nogueira sorrindo. O Pereira at agora foi um sujeito de tino. Todo o mundo gabava a prudncia dele. Hoje o Padilha tacha-o de jumento.
- Homem, aventurou Azevedo Gondim coando a barba, no  s o Padilha. Eu tambm. E voc. Num momento como este dar murro em faca de ponta! Se tivssemos uma eleio 
federal de cabala, v. Mas quando o governo no faz caso de votos, querer sacudir Padre Silvestre na Prefeitura! O Padilha tem razo.
- Ora essa! atalhei. Voc no sustentou a candidatura do vigrio no jornal, Gondim?
- Sustentei. Sustentei por dever de solidariedade poltica. Mas particularmente discordei. O Nogueira est a para atestar. E quanto a dizer que era disparate, era.
Sabia que Padre Silvestre falara em cortar a subveno de cento e cinqenta mil-ris mensais que o municpio dava ao Cruzeiro. Tinha esta ameaa atravessada na garganta. 
E, cheio de raiva, defendia o vigrio, exaltando-lhe as virtudes e esquecendo o resto de propsito.
- Um desastre. Bom homem.  pouc. Muito ingnuo, emprenha pelos ouvidos, inteligncia de peru novo, besta como aru.
- Padres! exclamou Lus Padilha com desprezo. Era ateu e transformista. Depois que eu o havia desembaraado da fazenda, manifestava idias san
53
ginrias e pregava, cochichando, o extermnio dos burgueses.
- Canalha!
E roeu as unhas com furor.
Seu Ribeiro, os culos atentos, comentava em silncio, com gestos de desagrado, a prosa ruim do Brito.
- O que eu no compreendo, estranhei,  a razo dessa rasteira no vigrio. Estava quase eleito, reconhecido, empossado, e de repente zs! no cho. Por que foi?
- Padre Silvestre  revolucionrio, explicou Joo Nogueira. Pretende salvar o pas por processos violentos.
Estremeci. Casimiro Lopes, de binga na mo, acendia o cigarro. O luar estava muito branco. Um pedao de mata aparecia, longe, e distinguiam-se as flores amarelas 
dos paus-d'arco.
Levantei-me, fiz um sinal a Joo Nogueira e aproximamo-nos da janela.
-  Dr. Nogueira, diga-me c, perguntei em voz baixa, essa histria da queda do Pereira  certa? Joo Nogueira aceitou um charuto e declarou que no havia dvida 
nenhuma.
- O governador estava razovel e props um acordo metendo o padre no conselho. O Pereira jogou no padre e levou taboca.
- Pois, Dr. Nogueira, murmurei abafando mais a voz, cuido que chegou a ocasio de liquidar os meus negcios com o Pereira. Tenho marombado, espiado mar, porque 
o chefe era ele. Mas se foi ao barro, acabou-se. Est aqui enrascado numa conta de cabelos brancos. Vou entregar-lhe a conta. Veja se me consegue uma hipoteca.
- Perfeitamente, concordou Joo Nogueira.
54
E entusiasmou-se:
- Perfeitamente! Passe a procurao. O senhor vai prestar ao partido um grande servio. Aperte o Pereira, Seu Paulo Honrio.
55
Captulo dez
Aqui nos dias santos surgem viagens, doenas e outros pretextos para o trabalhador gazear. O domingo  perdido, o sbado tambm se perde, por causa da feira, a semana 
tem apenas cinco dias, que a Igreja ainda reduz. O resultado  a paga encolher e essa cambada viver com a barriga tinindo.
Num feriado de mentira, no tendo podido encontrar gente para tirar baronesas do aude e brocar um pedao de capoeira, distra-me ouvindo Padilha e Casimiro Lopes 
conversarem a respeito de onas.
No se entendem. Padilha, homem da mata e franzino, fala muito e admira as aes violentas; Casimiro Lopes  coxo e tem um vocabulrio mesquinho. Julga o mestre-escola 
uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinio arregala os olhos e d um pequeno assobio. Gagueja. No serto passava horas calado, e 
quando estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, meia dzia delas. Ultimamente, ouvindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns termos, que empregava fora 
de propsito e deturpados. Naquele dia, por mais que forcejasse, s conseguia dizer que as onas so bichos brabos e arteiros.
57
- Pintada. Dento grande, pezo grande, cada unha! Medonha!
Padilha exigia que o outro repetisse a descrio e ia intercalando nela, por conta prpria, caracteres novos. Casimiro Lopes divergia; mas, confiado na cincia de 
Padilha, capitulava e ao cabo de minutos a ona estava um animal como nunca se viu.
-  Casimiro, voc vai levar um papel ao vigrio. E escrevi a Padre Silvestre agradecendo o interesse que ele tinha tomado pela viagem difcil de Margarida. Chegara 
dias antes e estava alojada numa casinha cercada de bananeiras.
Entreguei a carta a Casimiro Lopes, tomei o chapu e fui fazer a minha segunda visita  preta. Desci a ladeira. Ao atravessar o paredo do aude, amedrontei uma 
nuvem de marrecas e jaans. Com as ltimas chuvas a represa aumentara muito, os bancos de baronesa estavam com vontade de entupir o sangradouro. A levada que ia 
ter ao descaroador e  serraria transbordava. Fechada a serraria, fechado o descaroador. Dia perdido.
Encontrei Margarida sentada numa esteira, riscando os tijolos com carves.
- Me Margarida, como vai a senhora?
Tentou endireitar o espinhao emperrado e, antes de lanar-me os olhos brancos, reconheceu-me pela voz.
- Aqui gemendo de pecados.
Pecados! Antigamente era uma santa. E agora, miudinha, encolhidinha, com pouco movimento e pouco pensamento, que pecados poderia ter? Como estava com a vista curta, 
falou sem levantar a cabea, repetindo os conselhos que me dava quando eu
e chorando, meu filho, cheia
58
era menino. Uma fraqueza apertou-me o corao, aproximei-me, sentei-me na esteira, junto dela.
- Me Margarida, procurei a senhora muito tempo. Nunca me esqueci. Foi uma felicidade encontrla. E carecendo de alguma coisa,  dizer. Mande buscar o que for necessrio, 
Me Margarida, no se acanhe.
Olhou com espanto as cadeiras, a mesinha, a lmpada eltrica, os mveis do quarto prximo.
- Para que tanto luxo? Guarde os seus troos, que podem servir. Em cama no me deito. E quem d o que tem a pedir vem.
- No faz mal, Me Margarida. Esteja sossegada, durma sossegada.. Faltando lenha para o fogo, avise. No deixe o fogo apagar-se, que as noites esto frias.
-  o que eu preciso, o fogo. O fogo e um pote. Continuou a riscar figuras no cho. Curvada, um rosrio de contas brancas e azuis aparecia pelo cabeo aberto e 
batia-lhe nas pelancas dos peitos.
- Queria tambm um tacho. O outro furtaram. Lembrei-me do tacho velho, que era o centro da pequenina casa onde vivamos. Mexi-me em redor dele vrios anos, lavei-o, 
tirei-lhe com areia e cinza as manchas de azinhavre e dele recebi sustento. Margarida utilizou-o durante quase toda a vida. Ou foi ele que a utilizou. Agora, decrpita, 
no podia ser doceira, e aquele traste se tornava inteiramente desnecessrio.
- Est bem, Me Margarida, ter um tacho igual ao outro.
59
Captulo onze
Amanheci um dia pensando em casar. Foi uma idia que me veio sem que nenhum rabo de saia a provocasse. No me ocupo com amores, devem ter notado, e sempre me pareceu 
que mulher  um bicho esquisito, difcil de governar.
A que eu conhecia era a Rosa do Marciano, muito ordinria. Havia conhecido tambm a Germana e outras dessa laia. Por elas eu julgava todas. No me sentia, pois, 
inclinado para nenhuma: o que sentia era desejo de preparar um herdeiro para as terras de So Bernardo.
Tentei fantasiar uma criatura alta, sadia, com trinta anos, cabelos pretos mas parei a. Sou incapaz de imaginao, e as coisas boas que mencionei vinham destacadas, 
nunca se juntando para formar um ser completo. Lembrei-me de senhoras minhas conhecidas: Dona Emlia Mendona, uma Gama, a irm de Azevedo Gondim, Dona Marcela, 
filha do Dr. Magalhes, juiz de direito.
Nesse ponto surgiu-me um pequeno contratempo. Uma tarde surpreendi no oito da capela (a capela estava concluda; faltava pintura) Lus Padilha discursando para 
Marciano e Casimiro Lopes:
- Um roubo.  o que tem sido demonstrado ca
61
tegoricamente pelos filsofos e vem nos livros. Vejam: mais de uma lgua de terra, casas, mata, aude, gado, tudo de um homem. No est certo.
Marciano, mulato esbodegado, regalou-se, entronchando-se todo e mostrando as gengivas banguelas: - O senhor tem razo, Seu Padilha. Eu no entendo, sou bruto, mas 
perco o sono assuntando nisso. A gente se mata por causa dos outros.  ou no , Casimiro?
Casimiro Lopes franziu as ventas, declarou que as coisas desde o comeo do mundo tinham dono.
- Qual dono! gritou Padilha. O que h  que morremos trabalhando para enriquecer os outros. Sa da sacristia e estourei:
- Trabalhando em qu? Em que  que voc trabalha, parasita, preguioso, lambaio?
- No  nada no, Seu Paulo, defendeu-se Padilha, trmulo. Estava aqui desenvolvendo umas teorias aos rapazes.
Atirei uma poro de desaforos aos dois, mandei que arrumassem a trouxa, fossem para a casa do diabo.
- Em minha terra no, acabei j rouco. Puxem! Das cancelas para dentro ningum mija fora do caco. Peguem as suas burundangas e danem-se. Com um professor assim, 
estou bonito. Dou por visto o que este sem-vergonha ensina aos alunos.
Mais tarde, porm, cheio de embromaes e lamrias, Padilha jurou por todos os santos que a escola funcionava normalmente e fazia cortar corao deixar tantas crianas 
sem o po do saber. Quanto s teorias, aquilo era s para matar tempo e empulhar o Casimiro.
- Eu meto a mo em cumbuco? Sou l capaz de propagar idias subversivas?
62
No outro dia pela manh, choramingando, balbuciando peditrios, a Rosa, com cinco filhos (trs agarrados s saias, um nos braos, outro no bucho), atracou-me no 
pomar. E eu, que no tenho grande autoridade junto dela, sosseguei-a:
- Mande-me c o Marciano, aquele cachorro. At logo, vou ver.
 noite reuni Marciano e Padilha na sala de jantar, berrei um sermo comprido para demonstrar que era eu que trabalhava para eles. Mas atrapalhei-me e contentei-me 
com injuri-los:
- Mal-agradecidos, estpidos. Amunhecaram, e baixei a pancada:
- Juzo de galinha. Embarcando em canoa furada! Tontos.
Dei-lhes conselhos. Encontrando macieza, Lus Padilha quis discutir; torneia zangar-me, e ele se convenceu de que no tinha razo. Marciano encolhia-se, levantava 
os ombros e intentava meter a cabea dentro do corpo. Parecia um cgado. Padilha roa as unhas.
- Por esta vez passa. Mas se me constar que vocs andam com saltos de pulga, chamo o delegado de polcia, que isto aqui no  a Rssia, esto ouvindo? E sumam-se.
Sumiram-se. Ficou-me um resto de indignao, depois serenei.
- Faz de conta que no houve nada.
Lorotas. Todos esses malucos dormem demais, falam  toa.
- Marciano, coitado, nem por isso. Trata bem do gado,  marido da Rosa.
Quanto ao Padilha, eu sentia prazer em humilhlo mostrando-lhe os melhormentos que introduzi na propriedade.
63
E recomecei a elaborar mentalmente a mulher a que me referi no princpio deste captulo. Revistei a Mendona, a Gama, a irm do Gondim (eu nem sabia como se chamava 
a Gondim) e Dona Marcela do Dr. Magalhes. Dona Marcela era um pancado. Cada olho! O que tinha de ruim era usar muita tinta no rosto e muitos ss na conversa. Pacincia. 
Perfeito s Deus.
Bambeava para me dirigir ao Dr. Magalhes quando Costa Brito voou para cima de mim, numa carta, com a inteno de avanar-me em duzentos mil-ris.
Costa Brito tinha virado. A Gazeta, que sempre louvara furiosamente o governo, fugira para a oposio, por causa de um emprego de deputado estadual, e achava a administrao 
pblica desorganizada, entregue a homens incompetentes. A ns que votvamos com o partido dominante, mas no ramos peixe nem carne queixumes, nariz torcido, modos 
de enjo. Da minha ltima viagem  capital, em troca de uma notcia besta de quatro linhas, o diretor da Gazeta ainda me lambera cinqenta milris, no caf, bebendo 
cerveja com indignao:
- Querem jornal de graa. Para o inferno! A vida inteira escrevendo como um condenado, mentindo, para esses moos subirem! S a despesa que se tem! S o preo do 
papel! E na eleio, coice. Nem uma porcaria, uma desgraa que qualquer prefeito analfabeto consegue com facilidade. Querem elogios. Est aqui para eles.
Eu no precisava do Brito, mas passei o dinheiro, em ateno a servios prestados anteriormente e porque no gosto de questes com gente de imprensa. Depois aludi 
 crise e dei a entender que no continuava a sangrar.
Mas o Brito tem barriga de ema: desprezou o
64
aviso e mandou-me diversas cartas, as primeiras com choro, as ltimas com exigncias. Essa que me vinha embrulhar os planos de casamento trazia ameaas. Recusei 
o cobre, num telegrama: "Intil insistir. Fartssimo".
Tinha graa viver aqui suando para sustentar um literato. Eu era pai dele?
- Quem pariu mateu que o balance. Uma ou outra facada razovel, com moderao, v. Ameaas, no. Chantagem, no.
Que diabo diria ele contra mim na folha? No sendo funcionrio pblico, as minhas relaes com o partido limitavam-se a aliciar eleitores, entregarlhes a chapa oficial 
e contribuir para msica e foguetes nas recepes do governador. O veneno da Gazeta no me atingia. Salvo se ela bulisse com os meus negcios particulares. Nesse 
caso s me restava pegar um pau e quebrar as costelas do Brito.
Recalquei as idias violentas e esforcei-me por trazer de novo ao esprito as tintas e os ss de Dona Marcela. Vieram. Mas afastavam-se de quando em quando e nos 
intervalos apareciam Marciano, a Rosa com os meninos, Lus Padilha e Costa Brito.
65
Captulo doze
A questo do Pereira estava dormindo no cartrio, esperando que o juiz de direito desse uma penada nos autos. Joo Nogueira disse-me isso uma tarde. Eu ento, ligando 
o caso do Pereira aos predicados de Dona Marcela, desci no dia seguinte  cidade, resolvido a visitar o Dr. Magalhes.
Encontrei-o  noitinha no salo, que servia de gabinete de trabalho, com a filha e trs visitantes: Joo Nogueira, uma senhora de preto, alta, velha, magra, outra 
senhora moa, loura e bonita.
Estavam calados, em dois grupos, os homens separados das mulheres.
O Dr. Magalhes  pequenino, tem um nariz grande, um pince-nez e por detrs do pince-nez uns olhinhos risonhos. Os beios, delgados, apertam-se. S se descolam para 
o Dr. Magalhes falar a respeito da sua pessoa. Tambm quando entra neste assunto, no pra.
Naquele momento, porm, como j disse, conservavam-se todos em silncio. Dona Marcela sorria para a senhora nova e loura, que sorria tambm, mostrando os dentinhos 
brancos. Comparei as duas, e a importncia da minha visita teve uma reduo de cinqenta por cento.
67
Larguei, pois, Dona Marcela e procurei, por meios indiretos, arrancar do juiz as linhas indispensveis ao advogado.
O Dr. Magalhes passou a mo pela testa e perguntou:
- Quais so os jomais que o senhor assina? Respondi que assinava revistas de agricultura, a folha do partido, o Cruzeiro e a Gazeta. Elogiei Azevedo Gondim e ataquei 
o Brito.
- Um caradura, no ?
O Dr. Magalhes amoitou-se. Joo Nogueira foi  estante de duas prateleiras, tirou um livro, voltou a sentar-se e comeou a ler.
Houve no outro lado da sala um sussurro entrecortado de risinhos.
Necessitando pensar, pensei que  esquisito este costume de viverem os mahos apartados das fmeas. Quando se entendem, quase sempre so levados por motivos que 
se referem ao sexo. Vem da talvez a malcia excessiva que h em torno de coisas feitas inocentemente. Dirijo-me a uma senhora, e ela se encolhe e se arrepia toda. 
Se no se encolhe nem se arrepia, um sujeito que est de fora jura que h safadeza no caso.
- No tem aparecido ultimamente no cinema, hem? disse em voz alta a senhora de preto.
- Faz quinze dias, Dona Glria, respondeu Dona Marcela. Acho que faz quinze dias.  papai, quanto tempo faz que ns fomos ao cinema?
O Dr. Magalhes calculou. Tirou do bolso um cigarro, dividiu-o em duas partes, transformou uma delas num cigarrinho fino, acendeu-o:
- Duas semanas.
-  isso mesmo, quinze dias.
68
- No, discordou o Dr. Magalhes, duas semanas. Voc est equivocada.
- Duas semanas no so quinze dias? perguntou Dona Marcela.
- No. Duas semanas so catorze dias. Dona Marcela no se convenceu:
- Sempre ouvi dizer que duas semanas so quinze dias.
- Eu tambm tenho ouvido, confessou o Dr. Magalhes. Tenho ouvido at muitas vezes. Mas  engano. Uma semana tem sete dias. Sete e sete no so catorze? E ento? 
So catorze.
Joo Nogueira soltou o livro. Talvez Dona Marcela contasse com o dia do cinema.
-  possvel, acedeu o Dr. Magalhes. No contando, so catorze.
- Mas contando, so quinze, gritou Dona Marcela.
-  bom no contar, aconselhou o Dr. Magalhes.
Despertaram todos, e mento para se levantar. - Muito cedo, murmurou Dona Marcela.
A senhora de preto continuou sentada e entrou a discorrer sobre romances. Dona Marcela tinha acabado um, de aventuras. Ia ver se se lembrava do enredo. Mas enganchou-se 
e no acertou com os nomes das personagens. Recomeou, tornou a enganchar-se:
- Um romance que faz gosto, Dona Glria.
- Eu no gosto de literatura, disse o Dr. Magalhes. Folheei algumas obras antigamente. Hoje no. Desconheo tudo isso. Sou apenas juiz, pehiu! juiz.
Dona Marcela estava quase acertando com o enredo do romance de aventuras. Dona Glria escu
a lourinha fez um movi
69
tava. A loura tinha a cabecinha inclinada e as mozinhas cruzadas, lindas mos, linda cabea.
- Quando julgo, anunciava o Dr. Magalhes, abstraio-me, afasto os sentimentos.
- Estive comentando isso ontem  tarde com o Dr. Nogueira, atalhei.
O Dr. Magalhes agradeceu.
- Para proceder assim  necessrio ter independncia. Eu tenho independncia. Que  que eles podem fazer comigo? No preciso deles.
Ignoro a que pessoas se referia o Dr. Magalhes. Joo Nogueira tocou-lhe no ombro e cochichou. Compreendi que se tratava do negcio do Pereira.
Levantei-me, arredei-me, para no prejudicar a integridade do juiz e para desemburrar-me um pouco. Fui  janela, acendi o cachimbo.
Dona Marcela ia terminando a narrao do romance. O advogado estava satisfeito. Apertei nos dentes o cachimbo e esfreguei as mos com fora:
- Ora muito bem. Que me dizem os senhores da chapa do partido? No conheo os candidatos, mas suponho que h uns dois ou trs oradores arrojados.
- O senhor acredita nisso? perguntou Joo Nogueira.
- Em qu?
- Eleies, deputados, senadores.
Retra-me indeciso, porque no tinha idias guras a respeito dessas coisas.        '
- A gente se acostuma com o que v. E eu, desde que me entendo, vejo eleitores e umas. s vezes suprimem os eleitores e as umas: bastam livros. Mas  bom um cidado 
pensar que tem influncia no governo, embora no tenha nenhuma. L na fazenda o trabalhador mais desgraado est conven
se
70
cido de que, se deixar a peroba, o servio emperra. Eu cultivo a iluso. E todos se interessam.
Joo Nogueira refletiu um instante:
- O que eu acho  que os deputados e os senadores so inteis e comem demais.
Ia responder, mas notei que o Dr. Magalhes se mexia: Fiquei com a resposta nas goelas. Ele conteve-se, e estivemos um minuto nesse jogo, cada um esperando pelo 
outro. Observei ento que a mocinha loura voltava para ns, atenta, os grandes olhos azuis.
De repente conheci que estava querendo bem  pequena. Precisamente o contrrio da mulher que eu andava imaginando mas agradava-me, com os diabos. Miudinha, fraquinha. 
Dona Marcela era bicho. Uma peitaria, um p de rabo, um toitio!
Como o silncio se prolongasse, repliquei ao Nogueira, quase me dirigindo  lourinha:
- Existem coisas inteis que ns conservamos. Eu conservo este cachimbo, que  intil e at me faz mal.
Enchi o cachimbo:
- Que, para ser franco, nem sei se ele  intil. Talvez no seja. Por isso vou s eleies. O senhor com certeza no quer acabar com as leis.
O Dr. Magalhes, para quem a lei escrita  como o ar, escandalizou-se:
- Oh!
- No, tornou Joo Nogueira. Que essas do Congresso ordinariamente no prestam. O que  bom acabar  o Congresso. As leis deviam ser feitas por especialistas.
- Ah! suspirou o Dr. Magalhes, aliviado.
Leis ou decretos, desde que estivessem no papel,
71
em forma, era tudo o mesmo. Cruzou as pernas, balanou a cabea, estirou o beio e levantou um dedo: - O que precisamos  uma elite.
- Perfeitamente, apoiou Joo Nogueira, uma oligarquia.
Mas o Dr. Magalhes embirrou com o nome: - Ah! no.
- Ora essa! exclamou Joo Nogueira. S podemos ter no governo uma elite de poucos indivduos. oligarquia.
- Mas que  que a oposio faz. seno berrar nos jomais e nos meetings contra isso? perguntei. - A oposio no sabe o que diz. Ns temos l oligarquia? Temos uma 
quantidade enorme de cavadores no poder. S os congressistas! E os ministros, os presidentes, os governadores, os secretrios, os polticos do sul. Muito dente roendo 
o tesouro. E que scia! Veja os nossos representantes no Congresso federal. Que diz, Seu Magalhes? O Dr. Magalhes no dizia nada.
- Nunca leio poltica. Sou apenas juiz. Estudo, compulso os meus livros, pehiu! Acordo cedo, tomo uma xcara de caf, pequena, fao a barba, vou ao banho. Depois 
passeio pelo quintal, volto, distraiome com as revistas e almoo, pouco, por causa do estmago. Descanso uma hora, escrevo, consulto os mestres. Janto, dou um giro 
pela cidade,  noite recebo os amigos, quando aparecem, durmo.
Dona Glria no se conteve:
- Obra com acerto,  preciso preservar a sade. Joo Nogueira deu ao rosto uma expresso safada: - Sem dvida,  preciso preserv-la. Mas, como amos dizendo, isto 
nunca foi oligarquia. H gente demais.
- Pois se, havendo tanta, a oposio grita, ima
72
gine se o nmero fosse menor. A  que a gritaria no findava.
- Por qu?
- Porque muitos dos que esto em cima estariam embaixo, o descontentamento seria maior. Como o advogado se aproximasse da janela, soprei-lhe ao ouvido:
- Ele prometeu o despacho?
Joo Nogueira afirmou com um gesto. Despedi-me:
- No concordo gueira. A Repblica mos ...        Reflita.
- Eu por mim sou apenas juiz, disse o Dr. Magalhes. Estudo, consulto os bons autores. . . Demorei-me at que ele terminasse, despedi-me pela segunda vez e sa.
Percorri a cidade, bestando, impressionado com os olhos da mocinha loura e esperando um acaso que me fizesse saber o nome dela. O acaso no veio, e decidi procurar 
Joo Nogueira, informar-me do nome, posio, famlia, as particularidades necessrias a quem pretende dar uma cabeada sria. s dez horas fui  redao do Cruzeiro, 
mas s encontrei Arquimedes, compondo. Estive no bilhar do Sousa. No havia fregueses; apenas um, meio golado.
- O Dr. Nogueira deve estar em casa da Ernestina.
Eu no sabia onde era a casa da Ernestina. Cerca de meia-noite descobri o advogado no hotel, discutindo poesia com Azevedo Gondim. Escutei uma hora, desejoso de 
instruir-me. No me instru.
- Dr. Nogueira, faz obsquio?  um instante, Gondim.
com o senhor no, Dr. Novai bem. S a justia que te
73
Mas tive acanhamento de tocar naquele assunto delicado, receei tornar-me ridculo, imaginei que podia o Nogueira andar tambm arrastando a asa para a lourinha e, 
sentindo uma espcie de despeito, pedi informaes minuciosas sobre o processo do Pereira.
74
Captulo treze
Tornei a encontrar a mocinha loura. Eu voltava da capital, aonde tinha ido por causa do semvergonha do Brito.
A coisa se deu assim. Depois do meu telegrama (lembram-se: o telegrama em que recusei duzentos mil-ris quele pirata), a Gazeta entrou a difamarme. A princpio 
foram mofinas cheias de rodeios, com muito vinagre, em seguida o ataque tornou-se claro e saram dois artigos furiosos em que o nome mais doce que o Brito me chamava 
era assassino. Quando li essa infmia, armei-me de um rebenque e desci  cidade.
- O que o senhor deve fazer  process-lo, aconselhou Joo Nogueira.  _fcil met-lo na cadeia. - E querendo defender-se, tem c o Cruzeiro, insinuou Azevedo Gondim. 
Pode escrever. Ou ento escrevo eu, ou escreve o Nogueira. Infelizmente o Cruzeiro circula pouco. Mas  o que temos. Disponha.
- Obrigado, Gondim; obrigado, Dr. Nogueira. Depois resolvemos. No vale a pena quebrar a cabea com uma -tolice dessa.
E ficamos no hotel at onze da noite, jogando domin a tosto o tento.
75
No outro dia tomei o trem, ferrei no sono e acordei s dez horas, na estao central. Logo ali, com o rebenque debaixo do brao, comecei a examinar as caras.
Subi a Rua do Comrcio, dobrei o Livramento, a Alegria, parei em frente  Gazeta. Olhei um instante, pelas grades, as caixetas imundas, entrei, atravessei a sala 
de composio, a de impresso e, l no fundo, desemboquei na redao, onde s estava um rapaz amarelo preparando telegramas com os jomais do Recife da vspera. 
O diretor tinha ido a Pajuara.
- Obrigado.
Voltei pelo mesmo caminho e estive uma hora no relgio oficial, observando os passageiros dos bondes da Ponta-da-Terra. Afinal surgiu o focinho de rato do Brito.
- Ol!
Recuou, tentou retomar o estribo, mas o carro j ia longe. Franziu a testa com dignidiade. Vendo o rebenque, empalideceu e gaguejou:
- Bons olhos o vejam. Que sorte! Sim senhor, precisamos conversar.
Agarrei-lhe o brao, puxei-o para junto do relgio e disse-lhe, quase cochichando para no espantar os transeuntes:
- Ento, seu filho de uma gua, esses artigos. . . - Aquilo  matria paga, explicou o Brito. Seo livre, no viu logo? Vamos  redao, l nos entendemos melhor.
Em resposta passei-lhe os gadanhos no cachao e dei-lhe um bando de chicotadas. Juntaram-se muitas pessoas, um guarda-civil apitou, houve protestos, gritos, afinal 
Costa Brito conseguiu escapulir-se e azulou pelo Comrcio, em direo aos Martrios.
76
Encaminhei-me ao hotel, mas nem tive tempo de almoar, porque fui chamado  policia. Apertaramme com interrogatrios redundantes, perdi o trem das trs e no consegui 
demonstrar ao delegado que ele era ranzinza e estpido. Aborrecido, aporrinhado, recorri a um bacharel (trezentos mil-ris,fora despesas midas com automveis, 
gorjetas, etc.) e embarquei vinte e quatro horas depois, levando nos ouvidos um sermo do secretrio do Interior, que me seringou liberdade de imprensa e outros 
disparates.
No vago comprei os jomais do dia. Nenhum noticiava o espalhafato. Camaradas. Comecei a ler umas coisas interessantes sobre a apicultura. Pouco a pouco esqueci 
as burrices do delegado e o liberalismo do secretrio. E reconciliado com o Brito, confessei a mim mesmo que ele tinha bom corao e provavelmente no reincidiria. 
Concentrei-me na leitura. Efetivamente as abelhas seriam para ns uma fonte de riqueza.
Nesse ponto veio sentar-se nhora vestida de preto. Como baixei a portinhola.
a meu lado uma se* sol a incomodasse,
- Agradecida.
Reparando nela, reconheci a mulher que, um ms antes, em casa do Dr. Magalhes, escutava o romance de Dona Marcela.
- No tem de qu, Dona Glria.
Notei que ela estava com um pacote a furar-se nos joelhos agudos e pedi-o, coloquei-o junto  minha bagagem. Era uma velha acanhada: sorriso insignificante e modos 
de pobre. O trem ps-se em movimento. E encetamos um dilogo que se foi animando at nos tornarmos amigos.
77
- Esta Great Westem uma joa. Porcaria! Isto nunca foi carro. Que chiqueiro!
Inicio de ordinrio com frases assim as minhas viagens a trem. Dona Glria sobressaltou-se, receando que a companhia ouvisse. Em tom confidencial, achou que os carros 
no eram bons.
- Pssimos, Dona Glria.
Ela atentou em mim com respeito: - Creio que j nos vimos. No me minha memria  uma lstima.
- Em casa do juiz, o ms e uma mocinha loura ... Arregalou os olhos.
- Ah! sim.
E a conversa caiu. Para levant-la, abri o jornal e preguei-lhe um dedo:
- Est aqui um artigo baita sobre a apicultura. O autor disto  osso.
No compreendeu. De repente exclamou: - Agora me recordo. O senhor estava Dr. Nogueira, discutindo poltica.
-  isso mesmo. Houve uma pausa. - O senhor mora na capital? - No, moro no interior.
- Em Viosa? - .
- Eu tambm, h pouco tempo. quena. . . Horrvel, no ?
- A cidade pequena? E a grande. Tudo  horrvel. Gosto do campo, entende? do campo.
Dona Glria fechou a cara:
- Mato? Santo Deus! Mato s para bicho. E o senhor vive no mato?
- Em So Bernardo.
lembro. A passado. A senhora
Mas
com o
cidade pe
78
Dona Glria no conhecia So Bernardo, e essa ignorncia me ofendeu, porque para mim So Bernardo era o lugar mais importante do mundo.
- Uma boa fazenda! No h l essa gua podre que se bebe por a. Lama. No senhora, h conforto, h higiene.
Dona Glria retificou a espinha, ergueu a voz e desfez o ar apoucado:
- No me dou. Nasci na cidade, criei-me na cidade. Saindo da, sou como peixe fora da gua. Tanto que estive cavando transferncia para um grupo da capital. Mas 
 preciso muito pistolo. Promessas ... - Ah!  professora?
- No. Professora  minha sobrinha.
- Aquela moa que estava com a senhora em casa do Dr. Magalhes?
- Sim.
- E como Glria?
- Madalena. lhante ...
- Espere l. O Nogueira e o Gondim me falaram nela. Mulher prendada, bonita. Perfeitamente. O Gondim falou muito. O Gondim do Cruzeiro, um da venta chata.
- Sei.
E recolheu, sorrindo, os elogios  sobrinha.
- Pois uma menina como aquela encafuar-se num buraco, Seu...
- Paulo Honrio, Dona Glria. Faz pena. Isso de ensinar b-a-b  tolice. Perdoe a indiscrio, quanto ganha sua sobrinha ensinando b-a-b?
Dona Glria baixou a voz para confessar que as professoras de primeira entrncia tinham apenas cento e oitenta mil-ris.
 a graa
Veja
de sua sobrinha, Dona
o senhor. Fez um curso bri
79
19
- Quanto?
- Cento e oitenta mil-ris.
- Cento e oitenta mil-ris? Est a!  uma desgraa, minha senhora. Como diabo se sustenta um cristo com cento e oitenta mil-ris por ms? Quer que lhe diga? Faz 
at raiva ver uma pessoa de certa ordem sujeitar-se a semelhante misria. Tenho empregados que nunca estudaram e so mais bem pagos. Por que no aconselha sua sobrinha 
a deixar essa profisso, Dona Glria?
Dona Glria referiu-se  dificuldade de arranjar empregos e ao montepio.
- Que montepio! Isso vale nada! E empregos... Vou indicar um meio de sua sobrinha e a senhora ganharem dinheiro a rodo. Criem galinhas.
Dona Glria formalizou-se, e um passageiro prximo, como eu gritava entusiasmado, ps-se a rir. Era um mocinho de bigodinho e rubi no dedo. Aproximei dele o rosto 
cabeludo e a mo cabeluda:
- O senhor est rindo sem saber de qu. Vejo que possui uma carta. Quanto lhe rende? Se no tem pai rico, deve ser promotor pblico. Faria melhor negcio criando 
galinhas.
O mocinho encabulou.
- Boa ocupao, Dona Glria, ocupao decente. Se quiser dedicar-se a ela, recomendo-lhe a orpington. Escola! Bestidade. Abri uma na fazenda e entreguei-a ao Padilha. 
Sabe quem ? Um idiota. Mas diz ele que h progresso. E eu acredito. Pelo menos o Gondim e Padre Silvestre estiveram l examinando a molecoreba e acharam tudo em 
ordem. Dona Glria enrugou e desenrugou a cara:
- Cada qual tem o seu meio de vida.
- Histria! D um salto a So Bernardo para
80
eu lhe mostrar o que  uma lavoura de fazer gua na boca.
Essa conversa,  claro, no saiu de cabo a rabo como est no papel. Houve suspenses, repeties, mal-entendidos, incongruncias, naturais quando a gente fala sem 
pensar que aquilo vai ser lido. Reproduzo o que julgo interessante. Suprimi diversas passagens, modifiquei outras. O discurso que atirei ao mocinho do rubi, por 
exemplo, foi mais enrgico e mais extenso que as linhas chochas que aqui esto. A parte referente  enxaqueca de Dona Glria (e a enxaqueca ocupou, sem exagero, 
metade da viagem) virou fumaa. Cortei igualmente, na cpia, numerosas tolices ditas por mim e por Dona Glria. Ficaram muitas, as que as minhas luzes no alcanaram 
e as que me pareceram teis.  o processo que adoto: extraio dos acontecimentos algumas parcelas; o resto  bagao. Ora vejam. Quando arrastei Costa. Brito para 
o relgio oficial, apliquei-lhe uns quatro ou cinco palavres obscenos. Esses palavres, desnecessrios porque no aumentaram nem diminuram o valor das chicotadas, 
sumiram-se, conforme notar quem reler a cena da agresso, cena que, expurgada dessas indecncias, est descrita com bastante sobriedade.
Uma coisa que omiti e produziria bom efeito foi a paisagem. Andei mal. Efetivamente a minha narrativa d idia de uma palestra realizada fora da terra. Eu me explico: 
ali, com a portinhola fechada, apenas via de relance, pelas outras janelas, pedaos de estaes, pedaos de mata, usinas e canaviais. Muitos canaviais, mas este 
gnero de agricultura no me interessa. Vi tambm novilhos zebus, gado que, na minha opinio, est acabando de escangalhar os nossos rebanhos.
81
Hoje isso forma para mim um todo confuso, e se eu tentasse uma descrio, arriscava-me a misturar os coqueiros da lagoa, que apareceram s trs e quinze, com as 
mangueiras e os cajueiros, que vieram depois. Essa descrio, porm, s seria aqui embutida por motivos de ordem tcnica. E no tenho o intuito de escrever em conformidade 
com as regras. Tanto que vou cometer um erro. Presumo que  um erro. Vou dividir um captulo em dois. Realmente o que se segue podia encaixar-se no que procurei 
expor antes desta digresso. Mas no tem dvida, fao um captulo especial por causa da Madalena.
82
Captulo catorze
Na estao Dona Glria apresentou-me a sobrinha, que tinha ido receb-la. Atrapalhei-me e, para desocupar a mo, deixei cair um dos pacotes que ia entregar ao ganhador.
- Muito prazer. Eu j nome. E de vista. Mas no soa s. Encontramo-nos h - H um ms.
- Perfeitamente. Estive conversando sobre isso com sua tia, tima companheira de viagem. Sim senhora, muito prazer.
Dirigi-me ao hotel. E como a casa delas era no meu caminho, samos juntos.
- Dona Marcela disse-me que o senhor tem uma propriedade bonita, comeou Madalena.
- Bonita? Ainda no reparei. Talvez seja bonita. O que sei  que  uma propriedade regular. E embuchei, afobado. At ento os meus sentimentos tinham sido simples, 
rudimentares, no havia razo para ocult-los a criaturas como a Germana e a Rosa. A essas azunia-se a cantada sem rodeios, e elas no se admiravam, mas uma senhora 
que vem da escola normal  diferente. Emburrei, pois, e contei os embrulhos que o ganhador equilibrava na ca
conhecia a senhora de sabia que era uma pesdias.
83
bea. Fiz um esforo para enderear amabilidades a Dona Glria:
- O convite est de p, sim senhora, e eu tenho a sua promessa de ir passar uns dias na fazenda. Espero que leve a professora. Vem um automvel, em dez minutos esto 
l.
Dona Glria no tinha lena espantou-se.
- Ah! no.
- Por qu? Agora com as frias... - Passeios... Isso  para rico.
E, sorrindo:
- Que diria sua famlia se o senhor metesse duas desconhecidas em casa?
A quem se espantou fui eu:
-- Mas no tenho famlia, minha senhora, nunca tive. Vivo s, com Deus.
- Ento  pior, respondeu Madalena. - Inconveniente, declarou Dona Glria. Cocei a barba:
-  pena. Um lugar to bom para uma se refazer! Acabou-se. Se  inconveniente, dito por no dito.
Depois tornei:
- Mas inconveniente por qu? Pois eu tinha muito gosto em mostrar a Dona Glria uns marrecos de Pequim que so mesmo uma beleza. J viu os marrecos de Pequim, Dona 
Madalena?
- Ainda no.
- Est a! resmunguei. Estudam a vida inteira nem sei para qu.
- Descansar um pouco? disse Dona Glria. Estvamos  porta da casa delas, na Canafstula. - Obrigado. Vou chegando ao hotel. Demorei-me ainda um minuto:
prometido nada.
Mada
pessoa fica o
84
- Esto as senhoras aqui pessimamente instaladas. Adeus. E se resolverem ir a So Bernardo, avisem, para mandar o automvel.
- Perfeitamente, disse Dona Glria. agradecida pela companhia.
- No tem de qu.
No hotel marchei para o banheiro, e fui tirar o carvo e o suor. E ia-me sentando  mesa quando chegaram Joo Nogueira, Azevedo Gondim e Padre Silvestre.
- Ento que desordem foi essa? perguntou Azevedo Gondim. Soubemos ontem  noite.
- Imagine como nos assustamos, acrescentou o vigrio. Um escndalo!  verdade que o Brito andou mal.
- Andou. Necessidade. Ele no  ruim. Queria duzentos mil-ris, coitado, e eu torci o corpo. Tolice: gastei bem seiscentos, sem contar a aporrinhao de dois dias. 
O diabo  que, se ele recebesse os duzentos, havia de pedir mais duzentos e assim por diante.
- A notcia que circulou ontem foi que ele estava no hospital, com uma punhalada, informou Padre Silvestre. Constou at que tinha morrido. Felizmente hoje sossegamos. 
Ferimentos leves, no?
- Que ferimentos! O que houve foi troca de palavras. O Brito disse uns desaforos, eu disse outros, juntou-se gente e a polcia entrou na questo, que no era com 
ela. No houve nada.
- Logo vi, bradou Padre Silvestre. Um homem prudente como o senhor no ia provocar barulho. - Essa agora! gritou Azevedo Gondim. Pois eu tinha escrito duas colunas 
sobre o caso para o nmero de domingo.
Joo Nogueira aproximou-se e falou-me ao ouvido:
E muito
85
- Francamente, que foi que houve? - Uma arenga sem importncia.
E, pegando a ocasio:
-  Dr. Nogueira, quem  aquela - A tia da professora?
- Sim. Que tal  essa famlia? - Em que sentido?
- Em todo, respondi evasivamente. A jou hoje comigo, no trem.  simptica. - Mas que interesse tem o senhor...
-  que a mulher, indiretamente, tocou-me numa pretenso: transferncia da sobrinha. Eu nunca vi o diretor da Instruo Pblica, mas dou-me com o Silveira, que faz 
regulamentos. Talvez no fosse impossvel conseguir a transferncia. Se elas merecem, est claro.
- Mas  uma excelente professora, Seu Paulo, e um nobre carter. O senhor quer retir-la! Que lembrana! Se ela sair, sabe o que acontece? Mandam para c uma velha 
analfabeta.
- Tem razo. E, em voz alta: - Jantar? Agradeceram abraou-me:
- O amigo numa entalao dessa! A culpa foi do Brito. Ele  meio esquentado, mas ultimamente a orientao que vem dando  Gazeta  boa. Acompanhei-os:
-  Gondim, eu precisava falar com voc. Ficou.
- Estou morrendo de fome, Gondim. Dois dias quase sem comer! Calcule. Vamos jantar? Recusou o jantar, mas aceitou um copo de cer
Dona Glria?
velha via
e despediram-se. Padre Silvestre
86
veja. Quando cheguei  sobremesa, ele ia na terceira garrafa.
-  Gondim, voc professora.
- A Madalena?
- Sim. Encontrei-a uma noite destas e gostei da cara.  moa direita?
Azevedo Gondim encetou a quarta garrafa de cerveja e desmanchou-se em elogios.
- Mulher superior. S os artigos que publica no Cruzeiro!
Desanimei:
- Ah! Faz artigos!
- Sim, muito instruda. nhor com ela?
- Eu sei l! Tinha um projeto, mas a colaborao no Cruzeiro me esfriou. Julguei que fosse uma criatura sensata.
- Essa agora! bradou Gondim picado. O senhor tem cada uma!
- Est bem. Para voc no h segredo. Oua. Estou aborrecido com o Padilha.
- Alguma carraspana que ele tomou?
- Pior. Anda querendo botar socialismo na fazenda. Surpreendi-o dizendo besteiras. No liguei importncia, tanto que o conservei, mas, o caso bem pensado, talvez 
fosse melhor arranjar para ele outra colaborao, fora.
- E convidar a Madalena.
- Sim, estive pensando. No sei. Se ela for moa de bons costumes.
- De bons costumes? Claro. O diabo  que talvez no aceite. Morar nas brenhas!
- Isso so bobagens da tia, uma velha tonta. Mas a outra, se tem juzo como voc diz, aceita.
me falou h tempo numa
Que negcio tem o se
87
Azevedo Gondim mastigava amendoins torrados e bebia cerveja:
- , pode ser. Vantagem para ela, com certeza, aumento de ordenado.
- Sem dvida.
- Pode ser. Eu s tenho pena do pobre do Padilha.
- No. Cavo uma colocao para ele. J no lhe disse?  um canalha, coitado. E a respeito da moa...
- O senhor entendeu-se com ela?
- No, homem. Se me tivesse entendido, no estava consultando voc.  Gondim, faa-me um favor. Foi justamente para isso que lhe pedi que ficasse. Sonde a mulher.
Azevedo Gondim resistiu, encarecendo o servio que ia prestar:
- Mas eu no tenho intimidade com ela. Fale o senhor.
- Impossvel. H dois dias que estou ausente. Preciso chegar a So Bernardo hoje. E no sei a maneira de tratar com essa gente. Muitas voltas... Peite a moa, Gondim, 
faa-me o favor.
- Pois sim. Arrumo-lhe a paisagem, a poesia do campo, a simplicidade das almas. E se ela no se convencer, sapeco-lhe um bocado de patriotismo por cima.
88
Captulo quinze
Depois do convite, tornei-me quase ntimo das duas mulheres. Madalena no se decidiu logo. E eu, a pretexto de saber a resposta, comecei a freqentar a casinha da 
Canafstula. Um dia dei uns toques a Dona Glria:
- Por que  que sua sobrinha no procura marido?
Melindrou-se:
- Minha sobrinha no  feijo bichado para se andar oferecendo.
- Nem eu digo isso, minha senhora. Deus me livre.  um conselho de amigo. Garantir o futuro... Dona Glria empinou a coluna vertebral, e o peito cavado se achatou. 
Esse movimento de dignidade repentina fazia-lhe o vestido preto, j gasto, ficar esticado na barriga e frouxo nas costas. Resmungou palavras imperceptveis. Pouco 
a pouco voltou  posio normal, a omoplata adaptou-se novamente ao pano coado e o gargarejo tornou-se compreensvel: - Est visto que o casamento para as mulheres 
 uma situao...
- Razovel, Dona Glria. E at  bom para a sade.
89
- Mas h tantos casamentos desastrados. . . Demais isso no  coisa que se imponha.
- No, infelizmente.  preciso propor. Tudo mal organizado, Dona Glria. H l ningum que saiba com quem deve casar?
- Quanto a mim, acho que em questes de sentimento  indispensvel haver reciprocidade.
- Qual reciprocidade! Pieguice. Se o casal for bom, os filhos saem bons; se for ruim, os filhos no prestam. A vontade dos pais no tira nem pe. Conheo o meu manual 
de zootecnia.
Depois dessa conversa, a colheita do algodo prendeu-me duas semanas em So Bernardo. Refleti algumas vezes no caso. Era provvel que Dona Glria houvesse batido 
com a lngua nos dentes. Que teria dito? Apareci a Madalena com medo de ser mal recebido por causa da sugesto. Fui bem recebido:
- Como vai a lavoura?
- Vai regularmente. Creio que vai regularmente: ainda no posso prever o resultado da safra. E a sua escola? Os meninos, a Dona Glria, sem novidade? Estimo. O que 
 certo  que a senhora no se importa com lavoura, e eu vinha tratar de outro assunto.
- O convite que Vacilei:
- Mais ou menos.
- J lhe devia ter respondido que no aceito. - Que diabo! Mas o aumento do ordenado, filha de Deus?
- No convm. Estou em seis anos de magistrio, no deixo o certo pelo duvidoso. Essas escolas particulares hoje se abrem, amanh se fecham ... Fiz-lhe um cumprimento:
me fez pelo Gondim?
90
- Felicito-a pela sua prudncia. Efetivamente a senhora se arriscava a ficar sem mel nem cabao. - Se o senhor reconhece...
- Reconheo. E venho trazer-lhe outra proposta. Para ser franco, essa histria de escola foi tapeao. Madalena esperava, com uma rugazinha entre as sobrancelhas.
- O que vou dizer  difcil. Deve compreender... Enfim, para no estarmos com prlogos, arreio a trouxa e falo com o corao na mo. Tossi, encalistrado:
- Est a. Resolvi escolher uma companheira. E como a senhora me quadra... Sim, como me engracei da senhora quando a vi pela primeira vez...
Engasguei-me. Sria, plida, Madalena permaneceu calada, mas no parecia surpreendida.
- J se v que no sou o homem ideal que a senhora tem na cabea.
Afastou a frase com a mo pridos:
- Nada disso. cemos.
- Ora essa! No lhe tenho contado pedaos da minha vida? O que no contei vale pouco. A senhora, pelo que mostra e pelas informaes que peguei,  sisuda, econmica, 
sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa me de famlia.
Madalena foi  janela e esteve algum tempo debruada, olhando a rua. Quando se voltou, eu passeava pela sala, enchendo o cachimbo.
- Deve haver muitas diferenas entre ns.
- Diferenas? E ento? Se no houvesse diferenas, ns seramos uma pessoa s. Deve haver muitas. Com licena, vou acender o cachimbo. A
O que h 
fina, de dedos comque no nos conhe
91
senhora aprendeu vrias embrulhadas na escola, eu aprendi outras quebrando a cabea por esse mundo. Tenho quarenta e cinco anos. A senhora tem uns vinte.
- No, vinte e sete.
- Vinte e sete? Ningum lhe d mais de vinte. Pois est a. J nos aproximamos. Com um bocado de boa vontade, em uma semana estamos na igreja.
- O seu oferecimento  vantajoso para mim, Seu Paulo Honrio, murmurou Madalena. Muito vantajoso. Mas  preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao 
senhor, ouviu? A verdade  que sou pobre como Job, entende?
- No fale assim, menina. E a instruo, a sua pessoa, isso no vale nada? Quer que lhe diga? Se chegarmos a acordo, quem faz um negcio supimpa sou eu.
92
Captulo dezesseis
Uma semana depois,  tardinha, eu, que ali estava aboletado desde meio-dia, tomava caf e conversava, bastante satisfeito. No melhor da conversa Azevedo Gondim entrou 
sem cerimnia e atirou uma inconvenincia que no tinha tamanho:
- Ah! O senhor est aqui? Eu vinha dar os parabns a Dona Madalena. Foi bom encontr-lo. Minhas felicitaes.
- Que histria  essa? perguntei estremecendo. - O casamento, explicou Azevedo Gondim.  em que se fala. O senhor no tinha dito nada... Quando  isso?
No respondi. Madalena contou os fios do bordado. Dona Glria imobilizou-se, com uma xcara na mo. Tive desejo de torcer o pescoo do Gondim, que, percebendo a 
tolice, se encostou  parede, raspando o queixo. Levantei-me, cheguei  janela para disfarar o constrangimento. Como Gondim se aproximasse, rosnei:
- Voc est bbado?
- Julguei que no fosse segredo. Todo o mundo sabe.
Idiota.
E voltei a sentar-me. Acanhado, as orelhas num
93
Nossa Senhora da e Recreativo, que com as estantes vez por ano para
fogaru, agarrei-me ao Hospital de Conceio e ao Grmio Literrio levava uma existncia precria, cheias de traas e abrindo-se uma a posse da diretoria.
- Que utilidade tem isso? Azevedo Gondim sentou-se, renou:
-  uma sociedade que precata bons servios, Seu Paulo.
- Lorota! O hospital, sim senhor. Mas biblioteca num lugar como este! Para qu? ppra o Nogueira ler um romance de ms em ms. Uma literatura desgraada...
Azevedo Gondim, aferrando-se a uma idia, gira em redor dela, como peru:
- A instruo  indispensvel, a instruo  uma chave, a senhora no concorda, Dona Madalena? - Quem se habitua aos livros. - .
-  no habituar-se, interrompi E no confundam instruo com leitura de papel impresso.
- D no mesmo, disse Gondirfr. - Qual nada!
- E como  que se consegue instruo se no for nos livros?
- Por a, vendo, ouvindo, cotrendo mundo. O Nogueira veio da escola sabido como o diabo, mas no sabia inquirir uma testemunha Hoje esqueceu o latim e  um bom advogado.
- Entretanto o senhor acha o hospital necessrio. E por que no deita fora os seus tratados de agricultura?
-  diferente. Em todo o caso suponho que os mdicos estudam menos nos livros que abrindo barrigas, cortando vivos e defuntos em experincias. Eu,
pouco a pouco se
94
nas horas vagas, leio apenas observaes de homens prticos. E no dou valor demasiado a elas, confio mais em mim que nos outros. Os meus autores no vieram olhar 
de perto os homens e as terras de So Bernardo.
Madalena balanava a cabea:
- Perfeitamente. O que h  que no estamos acostumados a pensar assim. Assisti um dia destes a uma fita no cinema, e creio que aprendi mais que se visse aquilo 
escrito. Sem contar que se gasta menos tempo.
- E no se enche o quengo com estopadas, acrescentei. Vocs engolem muita bucha, Gondim. H por a volumes que cabem em quatro linhas.
Dona Glria estava quase dormindo. Azevedo Gondim, aturdido, agastado, ergueu os ombros:
- C para mim os livros so teis. Se o senhor julga que so inteis, deve ter l as suas razes. - Voc v que me refiro s histrias fiadas do Grmio.
- O pior  que o que  desnecessrio ao senhor talvez seja necessrio a muitos, disse Madalena. - Sem dvida, a beleza, triunfou Azevedo Gondim.  o que se quer. 
Harmonia, beleza, entende? - Ora sebo
Dona Glria levantou-se e entrou. Como o assunto estivesse reduzido a cinza, calamo-nos. Azevedo Gondim tentou atia-lo, inutilmente.
- Que poeira, hem? com o nordeste. Retirou-se.
Animei-me e avizinhei-me de Madalena:
- Est vendo? Por a j falam.  s em que falam, pelo que disse o Gondim.
Nenhuma resposta.
- No torno a pr os ps aqui. Primeiro porque
95
no quero prejudic-la, segundo porque  ridculo. Naturalmente a senhora j refletiu.
Madalena soltou o bordado.
- Parece que nos entendemos. Sempre desejei viver no campo, acordar cedo, cuidar de um jardim. H l um jardim, no? Mas por que no espera mais um pouco? Para ser 
franca, no sinto amor.
- Ora essa! Se a senhora dissesse que sentia isso, eu no acreditava. E no gosto de gente que se apaixona e toma resolues s cegas. Especialmente uma resoluo 
como esta. Vamos marcar o dia.
- No h pressa. Talvez daqui a um ano... Eu preciso preparar-me.
- Um ano? Negcio com prazo de ano no presta. Qtie  que falta? Um vestido branco faz-se em vinte e quatro horas.
Ouvindo passos no corredor, baixei a voz: -- Podemos avisar sua tia, no? Madalena sorriu, irresoluta.
- Est bem.
- J acabaram aquela discusso pau? perguntou Dona Glria da porta. Eu estava morrendo de sono. - E eu. O culpado foi o Gondim, que tem idias extravagantes.
Procurei maneira de formular o pedido, mas perturbei-me e no atinei com o que devia dizer:
- Dona Glria, comunico-lhe que eu e sua sobrinha dentro de uma semana estaremos embirados. Para usar linguagem mais correta, vamos casar. A senhora, est claro, 
acompanha a gente. Onde comem dois comem trs. E a casa  grande, tem uma poro de carits.
Dona Glria comeou a chorar.
96
Captulo dezessete
Casou-nos o Padre Silvestre, na capela de So Bernardo, diante do altar de So Pedro. Estvamos em fins de janeiro. Os paus-d'arco, floridos, salpicavam a mata de 
pontos amarelos; de manh a serra cachimbava; o riacho, depois das ltimas trovoadas, cantava grosso, bancando rio, e a cascata em que se despenha, antes de entrar 
no aude, enfeitava-se de espuma.
Quando viu os arames da iluminao, o telefone, os mveis, vrios trastes de metal, que Maria das Dores conservava areados, brilhando, Dona Glria confessou que 
a vida ali era suportvel...
- Eu no dizia?
Ofereci-lhe um quarto no lado esquerdo da casa, por detrs do escritrio, com janela para o muro da igreja, vermelho. O muro est hoje esverdeado pelas guas da 
chuva, mas naquele tempo era novo e cor de carne crua. Eu e Madalena ficamos no lado direito e da nossa varanda avistvamos o algodoal, o prado, o descaroador 
com a serraria e a estrada, que se torce contornando um morro.
- Vamos comear vida nova, hem? disse Madalena alegremente.
Desde ento  - comecei
a fazer nela algumas des
97
cobertas que me surpreenderam. Como se sabe, eu me havia contentado com o rosto e com algumas informaes ligeiras.
Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar afinar a minha sintaxe pela dela, mas no consegui evitar numerosos solecismos. Mudei de rumo. Tolice. Madalena no 
se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano.
Enjoou o Padilha, que achou "uma alma baixa". (A eu expliquei que a alma dele no tinha importncia. Exigia dos meus homens servios: o resto no me interessava.) 
Enjoou o Padilha. Mas gostou de Seu Ribeiro: meteu-se no escritrio, folheou os livros, examinou documentos, desarmou a mquina de escrever, que estava emperrada. 
E dois dias depois do casamento, ainda com um ar machucado, largou-se para o campo e rasgou a roupa nos garranchos do algodo.  hora do jantar encontrei-a no descaroador, 
conversando com o maquinista.
- Ora muito bem. Isto  mulher. Mas aconselhei-a a no expor-se:
- Esses caboclos so uns brutos. Quer trabalhar? Combino. Trabalhe com Maria das Dores. A gente da lavoura s comigo.
- A ocupao de Maria das Dores no me agrada. E eu no vim para aqui dormir.
- So entusiasmos do princpio.
- Outra coisa, continuou Madalena. A famlia de Mestre Caetano est sofrendo privaes.
- J conhece Mestre Caetano? perguntei admirado. Privaes,  sempre a mesma cantiga. A verdade  que no preciso mais dele. Era. melhor ir cavar a vida fora.
- Doente ...
- Devia ter feito
economia. So todos assim,
98
imprevidentes. Uma doena qualquer, e  isto: adiantamentos, remdios. Vai-se o lucro todo.
- Ele j trabalhou demais. E est to velho! - Muito, perdeu a fora. Pe a alavanca numa pedra pequena e chama os cavouqueiros para desloc-la. No vale os seis 
mil-ris que recebia. Mas no tem dvida: mande o que for necessrio. Mande meia cuia de farinha, mande uns litros de feijo.  dinheiro perdido.
99
Captulo dezoito
- A excelentssima, declarou Seu Ribeiro, entende de escriturao.
Seu Ribeiro morava, aqui, trabalhava comigo, mas no gostava de mim. Creio que no gostava de ningum. Tudo nele se voltava para o lugarejo que se transformou em 
cidade e que tinha, h meio sculo, bolandeira, teros, candeias de azeite e adivinhaes em noites de So Joo. Com mais de setenta anos, andava a p, de preferncia 
pelas veredas. E s falava ao telefone constrangido. Odiava a poca em que vivia, mas tirava-se de dificuldades empregando uns modos cerimoniosos e expresses que 
hoje no se usam. O reduzido calor que ainda guardava servia para aquecer aqueles livros grossos, de cantos e lombadas de couro. Escrevia neles com amor lanamentos 
complicados, e gastava quinze minutos para abrir um ttulo, em letras grandes e curvas, um pouco trmulas, as iniciais cheias de enfeites.
- Entende muito, continuou. E embora eu no concorde integralmente com o mtodo que preconiza, reconheo que poder, querendo, encarregar-se da escrita.
- Obrigada.
- No h de qu. A excelentssima conhece a
matria e tem caligrafia. Eu sou uma runa. Qualquer dia destes ...
Catou palavras:
- Qualquer dia destes estou com Deus.
- Sempre diz isso, resmungou Padilha. O senhor tem flego de sete gatos.
Pretendia acumular os cargos de professor e guarda-livros: E impacientava-se.
- No duro, estou gasto, respondeu Seu Ribeiro. E morreria tranqilo deixando os livros a uma pessoa que no viesse estrag-los com raspadelas.
- Isso  fcil, murmurou Padilha.
- Talvez, mas convm saber. Aqui a excelentssima...
- Tinha graa, tornou Padilha, Dona Madalena escrevendo os diversos a diversos.
- Nada mais natural, atalhou Madalena. No desejo, Deus me livre. Seu Ribeiro est forte.
- Somos todos mortais, minha senhora.  verdade que ningum pode penetrar os desgnios da Providncia, mas na minha idade ...
- Qual  o ordenado?
- Ora essa! estranhou Padilha. A senhora ocuparse com essas migalhas! Receber ordenado! Era tirar de uma mo e deitar na outra.
- Por que no? Se Seu Ribeiro tiver de aposentar-se ... Quanto ganha. o senhor, Seu Ribeiro?
O guarda-livros afagou as suas brancas: - Duzentos mil-ris.
Madalena desanimou: -  pouco. .
- Como? bradei estremecendo. - Muito pouco.
- Que maluqueira! Quando ele
estava
com
o
102
Brito, ganhava cento e cinqenta a seco. Hoje tem duzentos, casa, mesa e roupa lavada.
exato, confessou Seu Ribeiro. nada, o que recebo chega.
- Se o senhor tivesse dez filhos, disse Madalena.
- Naturalmente, concordou Dona Glria.
- Ora gaitas! berrei. At a senhora? Meta-se com os romances.
Madalena empalideceu:
- No  preciso zangar-se. nossas opinies.
- Sem dvida. Mas  tolice querer uma pessoa ter opinio sobre assunto que desconhece. Cada macaco no seu galho. Que diabo! Eu nunca andei discutindo gramtica. 
Mas as coisas da minha fazenda julgo que devo sabei. E era bom que no me viessem dar lies. Vocs me fazem perder a pacincia.
Joguei o guardanapo sobre os pratos, antes da sobremesa, e levantei-me. Um bate-boca oito dias depois do casamento! Mau sinal. Mas atirei a responsabilidade para 
Dona Glria, que s tinha dito uma palavra.
No me falta no chegava,
Todos ns temos as
103
gr -
 -,  - -past -,i0  -' - -si -PP, -s -c - - -s -
ei -iPeo        0r        s  -
 -ya P'+'9 -         -  -tQddos glde        porta
e,  -,+ -        \ -, - - -,s passos Soeu Ri
, -         -'a -' -  -'t -aR"        P - -a na tars -esa        igreja. P V - - - o "f -e -,ue 4 -hs,J -iteo  -es - A o dae  -i v
l. -,l  -        d! Lpes,         -4'ersando o -t        Dona
 -n -,         -r -at11\ , me di -a - e que 1         -de -s i        A
\ -
ai
"I  - 'cod -' -B        abe
 -e4 - -o  hle cV -os   -P -jbpes. Aass - a dele,  -tih, - - " -pe - a  -IP `'gs ignoto  - viso t
 - -  -1e4 s7^ -I -e        ,  -Os incon -lia - -is: enl -b -st -i - -a - - - -iV -o na msa  - tenho e
O -, -Pou - a -l'lati -d  - Odo:        as -ogP        conti
i        , yd         - - - os d        arecem " -yu - - -  - - -o r - - ' -dalena -m  - punho. Y - -p -p - - rfs! -wfio,  - - .
I -Iq -Je - -s.  -ipmog V -r -:nda as mais  -nsi ni. t, Bh at0'+' s        aa        g
 AA 1 e qDores        cozinha,
 -R - -p - -no nPs -Glr' - -        rosna scl no        ar
 -i' -4ge, -'ss, l        l ,4'u - e -l - -r  4'q -
kih - -         -0,  -over -  -1 -s l te0s ee atra
n - -9 - -. f1npde. p        ' - -pesar dsf  - - pales
 - -  -R  -        ,p fna  -  -' -ria  ba        t - clara.
t -ht - -o  - -pi -9ue         '' -  - que icm Vi zem.        
'        9ssod. N        sando s        Phlavras. ti -e5s, -, - -  - darp
so stply -         -nde a ela        adilha?
 -e        , - de q -e,tio 4o tem necesssent4lvermos  -o nos e4demos.
107
matria e tem caligrafia. Eu sou uma runa. Qualquer dia destes ...
Catou palavras:
- Qualquer dia destes estou core Deus.
- Sempre diz isso, resmungou Padilha. O senhor tem flego de sete gatos.
Pretendia acumular os cargos de professor e guarda-livros: E impacientava-se.
- No duro, estou gasto, respondeu Seu Ribeiro. E morreria tranqilo deixando os livros a uma pessoa que no viesse estrag-los com raspadelas.
- Isso  fcil, murmurou Padilha.
- Talvez, mas convm saber. Aqui a excelentssima...
- Tinha graa, tornou Padilha, Dona Madalena escrevendo os diversos a diversos.
- Nada mais natural, atalhou Madalena. No desejo, Deus me livre. Seu Ribeiro est forte.
- Somos todos mortais, minha senhora.  verdade que ningum pode penetrar os desgnios da Providncia, ruas na minha idade ...
- Qual  o ordenado?
- Ora essa! estranhou Padilha. A senhora ocuparse com essas migalhas! Receber ordenado! Era tirar de uma mo e deitar na outra.
- Por que no? Se Seu Ribeiro tiver de aposentar-se ... Quanto ganha. o senhor, Seu Ribeiro?
O guarda-livros afagou as suas brancas: - Duzentos mil-ris.
Madalena desanimou: -  pouco.
- Como? bradei estremecendo. - Muito pouco.
- Que maluqueira! Quando ele
estava
com
o
102
Brito, ganhava cento e cinqenta a seco. Hoje tem duzentos, casa, mesa e roupa lavada.
-  exato, confessou Seu Ribeiro. nada, o que recebo chega.
- Se o senhor tivesse dez filhos, disse Madalena.
- Naturalmente, concordou Dona
- Ora gaitas! berrei. At a senhora? com os romances.
Madalena empalideceu:
- No  preciso zangar-se. nossas opinies.
- Sem dvida. Mas  tolice querer uma pessoa ter opinio sobre assunto que desconhece. Cada macaco no seu galho. Que diabo! Eu nunca andei discutindo gramtica. 
Mas as coisas da minha fazenda julgo que devo saber. E era bom que no me viessem dar lies. Vocs me fazem perder a pacincia.
Joguei o guardanapo sobre os pratos, antes da sobremesa, e levantei-me. Um bate-boca oito dias depois do casamento! Mau sinal. Mas atirei a responsabilidade para 
Dona Glria, que s tinha dito uma palavra.
No me falta
no chegava,
Glria. Meta-se
Todos ns temos as
103
Captulo dezenove
Conheci que Madalena era boa em demasia, mas no conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, 
a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.
E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forado 
a escrever.
Quando os grilos cantam, sento-me aqui  mesa da sala de jantar, bebo caf, acendo o cachimbo. s vezes as idias no vm, ou vm muito numerosas e a folha prmanece 
meio escrita, como estava na vspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. No vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.
Emoes indefinveis me agitam inquietao terrvel, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazamos todos os dias, a esta hora. Saudade? 
No, no  isto:  desespero, raiva, um peso enorme no corao.
Procuro recordar o que dizamos. Impossvel. As minhas palavras eram apenas palavras, reproduo imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que 
no consigo exprimir. Para senti-las
105
melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse at ficarmos dois vultos indistintos na escurido.
L fora os sapos arengavam, o vento gemia, as rvores do pomar tornavam-se massas negras.
- Casimiro!
Casimiro Lopes estava no jardim, acocorado ao p da janela, vigiando.
- Casimiro!
A figura de Casimiro Lopes aparece  janela, os sapos gritam, o vento sacode as rvores, apenas visveis na treva. Maria das Dores entra e vai abrir o comutador. 
Detenho-a: no quero luz.
O tique-taque do relgio diminui, os grilos comeam a cantar. E Madalena surge no lado de l da mesa. Digo baixinho:
- Madalena!
A voz dela me chega aos ouvidos. No, no  aos ouvidos. Tambm j no a vejo com os olhos. Estou encostado  mesa, as mos cruzadas. Os objetos fundiram-se, e no 
enxergo sequer a toalha branca.
- Madalena ...
A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a Mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritao  diferente 
das outras,  uma irritao antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranqila. Mas estou assim. Irritado contra 
quem? Contra Mestre Caetano. No obstante ele ter morrido, acho bom que v trabalhar. Mandrio!        `
A toalha reaparece, mas no sei se  esta toalha sobre que tenho as mos cruzadas ou a que estava aqui h cinco anos.
106
Rumor do vento, dos sapos, dos grilos. A porta do escritrio abre-se de manso, os passos de Seu Ribeiro afastam-se. Uma coruja pia na torre da igreja. Ter realmente 
piado a coruja? Ser a mesma que piava h dois anos? Talvez seja at o mesmo pio daquele tempo.
Agora Seu Ribeiro est conversando com Dona Glria no salo. Esqueo que eles me deixaram e que esta casa est quase deserta.
- Casimiro!
Penso que chamei Casimiro Lopes. A cabea dele, com o chapu de couro de sertanejo, assoma de quando em quando  janela, mas ignoro se a viso que me d  atual 
ou remota.
Agitam-se em mim sentimentos colerizo-me e enterneo-me; bato vontade de chorar.
Aparentemente estou sossegado: as mos continuam cruzadas sobre a toalha e os dedos parecem de pedra. Entretanto ameao Madalena com o punho. Esquisito.
Distingo no ramerro da fazenda as mais insignificantes minudncias. Maria das Dores, na cozinha, d lies ao papagaio. Tubaro rosna acol no jardim. O gado muge 
no estbulo.
O salo fica longe: para irmos l temos de atravessar um corredor comprido. Apesar disso a palestra de Seu Ribeiro e Dona Glria  bastante clara. A dificuldade 
seria reproduzir o que eles dizem.  preciso admitir que esto conversando sem palavras.
Padilha assobia no alpendre. Onde andar Padilha? Se eu convencesse Madalena de que ela no tem razo ... Se lhe explicasse que  necessrio vivermos em paz.. . 
No me entende. No nos entendemos.
inconciliveis: crina mesa e tenho
107
O que vai acontecer ser muito diferente do que esperamos. Absurdo.
H um grande silncio. Estamos em julho. O nordeste no sopra e os sapos dormem. Quanto s corujas, Marciano subiu ao forro da igreja e acabou com elas a pau. E 
foram tapados os buracos de grilos.
Repito que tudo isso continua a azucrinar-me. O que no percebo  o tique-taque do relgio. Que horas so? No posso ver o mostrador assim s escuras. Quando me 
sentei aqui, ouviam-se as pancadas do pndulo, ouviam-se muito bem. Seria conveniente dar corda ao relgio, mas no consigo mexer-me.
108
Captulo vinte
Conforme declarei, Madalena possua um excelente corao. Descobri nela manifestaes de ternura que me sensibilizaram. E, como sabem, no sou homem de sensibilidades. 
 certo que tenho experimentado mudanas nestes dois ltimos anos. Mas isto passa.
As amabilidades de Madalena surpreenderam-me. Esmola grande. Percebi depois que eram apenas vestgios da bondade que havia nela para todos os viventes. Pacincia. 
Eu no devia esperar nem esses sobejos e o que viesse era lucro. Vivemos algum tempo muito bem.
Lembram-se de que deixei a mesa aborrecido com Dona Glria. Pois, passados minutos, Madalena me trouxe uma xcara de caf e deu a entender que estava arrependida 
de haver provocado o incidente.
- Foi uma leviandade.
- Foi, balbuciou Madalena vermelhinha, foi inconsiderao.
- Antes de falar, a gente pensa.
- Com certeza, disse ela bastante perturbada. Esqueci que os dois eram empregados e deixei es
109
capar aquela inconvenincia. Ah! foi uma inconvenincia e grande.
A eu peguei a xcara de caf e amoleci:
- No, assim tambm no. Para que exagerar? Houve apenas incompreenso. Obrigado, pouco acar. Incompreenso,  o termo. Eu explico. Aqui no  como l fora. O 
cinema, o bar, os convites, a loteria, o bilhar, o diabo, no temos nada disso, e s vezes nem sabemos em que gastar dinheiro. Quer que lhe diga? Comecei a vida 
com cem mil-ris alheios. Cem mil-ris, sim senhora. Pois estiraram como borracha. Tudo quanto possumos vem desses cem mil-ris que o ladro do Pereira me emprestou. 
Usura de judeu, cinco por cento ao ms.
Madalena ouviu atenta, aprovando, com modos de menina bem-educada:
- Acredito, acredito. O que h  que ainda no conheo o meio. Preciso acostumar-me.
Chamei Casimiro Lopes, entreguei-lhe a xcara e a bandeja. Depois acendi o cachimbo:
- O que sinto ... Ergui-me:
- Nunca me arrependo de nada. O que est feito est feito. Mas enfim cara feia no bota ningum para diante. E aquilo que eu azuni a Dona Glria...
- Coitada! Ela nem estava prestando ateno  conversa. Falou por falar.
- Foi uma dos diabos. Pois faa-me um favor: mostre a ela, por alto, que no tive inteno de mago-la. Uma pessoa idosa e respeitvel. . . Que no tive inteno, 
ouviu? Eu sou mesmo um sujeito meio azuretado.
Vem que estvamos brandos como duas bananas.
E assim passamos um ms. Por insistncia dela, deilhe ocupao:
- Faa a correspondncia. Quer ordenado. Perfeitamente, depois combinaremos isso. Seu Ribeiro que lhe abra uma conta.
Captulo vinte e um
Pois, apesar das precaues que tomamos, do asbesto que usamos para amortecer os atritos, veio nova desinteligncia. Depois vieram muitas. Pela manh Madalena trabalhava 
no escritrio, mas  tarde saa a passear, percorria as casas dos moradores. Garotos empalamados e beiudos agarravam-se s saias dela.
Foi  escola, criticou o mtodo de ensino do Padilha e entrou a amolar-me reclamando um globo, mapas, outros arreios que no menciono porque no quero tomar o incmodo 
de examinar ali o arquivo. Um dia, distraidamente, ordenei a encomenda. Quando a fatura chegou, tremi. Um buraco: seis contos de ris. Seis contos de folhetos, cartes 
e pedacinhos de tbua para os filhos dos trabalhadores. Calculem. Uma dinheirama to grande gasta por um homem que aprendeu leitura na cadeia, em carta de ABC, em 
almanaques, numa Bblia de capa preta, dos bodes. Mas contive-me. Contive-me porque tinha feito teno de evitar dissidncias com minha mulher e porque imaginei 
mostrar aquelas complicaes ao governador quando ele aparecesse aqui. Em todo o caso era despesa suprflua.
Assinei a duplicata, pus o chapu e sa. Ao pas
sar pelo estbulo, notei rao.
- Isto vai mal. E gritei:
- Marciano!
Gritei em vo. Desci a ladeira, com raiva. L embaixo,  porta da escola, descobri Marciano escanchado num tamborete, taramelando com Padilha.
- J para as suas obrigaes, safado.
- Acabei o servio, Seu Paulo, gaguejou Marciano perfilando-se.
- Acabou nada!
- Acabei, senhor sim. Juro por esta luz que nos alumia.
- Mentiroso. Os animais esto morrendo de fome, roendo a madeira.
Marciano teve um rompante:
- Ainda agorinha os cochos estavam cheios. Nunca vi gado comer tanto. E ningum agenta mais viver nesta terra. No se descansa.
Era verdade, mas nenhum morador me havia ainda falado de semelhante modo.
- Voc est se fazendo besta, seu corno? Mandei-lhe o brao ao p do ouvido e derrubei-o. Levantou-se zonzo, bambeando, recebeu mais uns cinco trompaos e levou 
outras tantas quedas. A ltima deixou-o esperneando na poeira. Enfim ergueuse e saiu de cabea baixa, trocando os passos e limpando com a manga o nariz, que escorria 
sangue. Estive uns minutos soprando. Depois voltei-me para o Padilha:
- O culpado  voc. - Eu?
- Sim, voc, que anda enchendo de folhas ventas daquele sem-vergonha.
que os animais no tinham
as
Padilha defendeu-se, plido:
- No ando enchendo nada no, Seu Paulo.  injustia. Ele veio de enxerido, acredite. No chamei, at disse: "Marciano,  melhor que voc v dar comida aos bichos". 
No escutou e ficou a, lesando. Eu estava enjoado, por Deus do cu, que no gosto da cara desse moleque.
Ia pregar-lhe uma descompostura, mas avistei Madalena, que, no paredo do aude, se virava para as runas do Marciano. Fui ao encontro dela, resmungando:
- Insolente! d-se o p, e quer tomar a mo. Mas a clera tinha desaparecido. O que agora me importunava eram as caixas com o material pedaggico intil nestes cafunds. 
Para que aquilo? O governador se contentaria se a escola produzisse alguns indivduos capazes de tirar o ttulo de eleitor. - Tomando fresca, hem? perguntei a Madalena, 
que tinha a vista presa no telhado escuro do estbulo. No deu resposta. Pus-me a olhar o bebedouro dos animais, o leito vazio do riacho alm do sangradouro do aude 
e, longe, na encosta da serra, a pedreira, que era apenas uma ndoa alvacenta. A mata ia enegrecendo. Um vento frio comeou a soprar. As ltimas cargas de algodo 
chegaram ao descaroador. Houve um apito demorado e os trabalhadores largaram o servio. Consultei o relgio: seis horas.
-  horrvel! bradou Madalena. - Como?
- Horrvel! insistiu. - Que ?
- O seu procedimento. Que barbaridade! Despropsito.
- Que diabo de histria. . .
Estaria tresvariando? No: estava bem acordada,
com os beios contrados, uma ruga entre as sobrancelhas.
- No entendo. Explique-se. Indignada, a voz trmula:
- Como tem coragem de espancar uma criatura daquela forma?
- Ah! sim! por causa do Marciano. Pensei que fosse coisa sria. Assustou-me.
Naquele momento no supus que um caso to insignificante pudesse provocar desavena entre pessoas razoveis.
- Bater assim num homem! Que horror! Julguei que ela se aborrecesse por outro motivo, pois aquilo era uma frivolidade.
- Ninharia, filha. Est voc a se afogando em pouca gua. Essa gente faz o que se manda, mas no vai sem pancada. E Marciano no  propriamente um homem.
- Por qu?
- Eu sei l. Foi vontade de Deus. lambo.
- Claro. Voc vive a humilh-lo.
- Protesto! exclamei alterando-me. Quando o conheci, j ele era molambo.
- Provavelmente porque sempre pontaps.
- Qual nada!  molambo porque nasceu molambo.
Madalena calou-se, deu as costas e comeou a subir a ladeira. Acompanhei-a embuchado. De repente voltou-se e, com voz rouca, uma chama nos olhos azuis, que estavam 
quase pretos:
- Mas  uma crueldade. Para que fez aquilo? Perdi os estribos:
 um mo
foi tratado a
- Fiz aquilo porque achei que devia fazer aquilo. E no estou habituado a justificar-me, est ouvindo? Era o que faltava. Grande acontecimento, trs ou quatro muxices 
num cabra. Que diabo tem voc com o Marciano para estar to parida por ele?
Captulo vinte e dois
Dona Glria gostava de conversar com Seu Ribeiro. Eram conversas interminveis, em dois tons: ele falava alto e olhava de frente, ela cochichava e olhava para os 
lados. Quando me via, calava-se.
Compreendo perfeitamente essas mudanas. Fui trabalhador alugado e sei que de ordinrio a gente mida emprega as horas de folga depreciando os que so mais grados. 
Ora, as horas de folga de Dona Glria eram quase todas.
Dormia, almoava, jantava, ceava, lia romances  sombra das laranjeiras e atenazava Maria das Dores, que endoidecia com a colaborao dela. Queixava-se de tudo: 
dos ratos, dos sapos, das cobras, da escurido. Afetava na minha presena uma atitude de vtima. No se cansava de gabar a cidade, fora de propsito. Passava parte 
dos dias no escritrio.
Seu Ribeiro tratava-a por excelentssima senhora (Madalena era apenas excelentssima). Julguei perceber, por certas palavras, gestos e silncios, que ela ia ali 
deplorar a sorte da sobrinha. Estava sempre ao p da carteira, amolando.
Madalena batia no teclado da mquina. Seu Ribeiro escrevia com lentido trmula, s vezes se aperreava procurando a rgua, a borracha, o frasco
de cola, que se ausentavam, porque Dona Glria tinha o mau costume de mexer nos objetos e no os pr nunca onde os encontrava. Eu me danava com essa desordem, fechava 
a cara, dava ordens secas rapidamente e saa para no estourar. Enfim desabafei. Num dia quatro o balancete do ms passado no estava pronto.
- Por que foi esse atraso, Seu Ribeiro? Doena? O velho esfregou as suas, angustiado:
- No senhor.  que h uma diferena nas somas. Desde ontem procuro fazer a conferncia, mas no posso.
- Por qu, Seu Ribeiro? E ele calado.
- Est bem. Ponha um cartaz ali na porta proibindo a entrada s pessoas que no tiverem negcio. Aqui trabalha-se. Um cartaz com letras bem grandes. Todas as pessoas, 
ouviu? Sem exceo.
- Isso  comigo? disse Dona Glria esticando-se. - Prepare logo o cartaz, Seu Ribeiro.
- Perguntei se era comigo, tornou Dona Glria diminuindo um pouco.
- Ora, minha senhora,  com toda a gente. Se eu digo que no h exceo, no h exceo.
- Vim falar com minha sobrinha, balbuciou Dona Glria reduzindo-se ao seu volume ordinrio. - Sua sobrinha, enquanto estiver nesta sala, no recebe visitas,  um 
empregado como os outros. - Eu no sabia. Pensei que no interrompesse. - Pensou mal. Ningum pode escrever, calcular e conversar ao mesmo tempo.
Dona Glria saiu descrevendo um ngulo reto: esgueirou-se da carteira at a parede e, beirando-a, alcanou a porta, que se abriu e fechou silenciosamente. Sentei-me 
e comecei a confrontar o dirio
120
com o razo. Seu Ribeiro aproximou-se para auxiliar-me.
- Obrigado.
Seu Ribeiro aprontou, com o canivete e a rgua, um quadrado de papelo. Madalena levantou-se, cobriu a mquina, trouxe-me as cartas, esperou que eu terminasse a 
leitura delas e retirou-se. Assinei as cartas e meti-as nos envelopes.
- Que  que Dona Glria vem fuxicar aqui, Seu Ribeiro?
- Nada de importncia, respondeu o guarda-livros. A senhora Dona Glria  um corao de ouro e versa diferentes temas com proficincia, mas eu, para ser franco, 
no a tenho escutado com a devida ateno.
Achei ridculo interrogar aquele homem grave sobre os mexericos de Dona Glria.
- Excelente senhora, afirmava Seu Ribeiro pautando a lpis o quadrado de papelo.
- Mais ou menos. Levantei-me:
- Cuidado com os intrusos.
- Perfeitamente, respondeu Seu Ribeiro.
No salo encontrei Madalena cada no sof, acabrunhada. Enxugou os olhos  pressa:
- Por que foi aquela brutalidade?
Madalena estava prenhe, e eu pegava nela como em loua fina. Ultimamente dizia-me coisas desagradveis, que eu fingia no compreender. Via a barriga crescer-lhe. 
Uma compensao. Sentei-me e, para no desgost-la:
- Foi realmente brutalidade. Brutalidade necessria, mas enfim brutalidade.  uma peste recorrer a isso.
- E para que recorre? chasqueou Madalena.
- J voc comea. Esses modos no, tenha pacincia. Detesto picuinhas. Comigo  trs zs, n cego. Subterfgios, no.
- Quem  que est com subterfgios? Foi uma brutalidade.
- Necessria.
- Desnecessria. V-se bem que voc no gosta de minha tia.
- Eu? Nem gosto nem desgosto. Pensei que ela quisesse alguma ocupao. A propsito,  bom voc deixar a mquina. Aquilo  ruim para a barriga. No se sente mal?
- No.
- Em todo o caso uns meses antes e uns meses depois do parto tem frias.
- Obrigada.
- Como ia dizendo, julguei que sua tia quisesse trabalhar. At uma vez dei a ela uns conselhos, no trem. Espinhou-se. Vive a com as mos abanando, lendo bobagens. 
No lhe quero mal por isso. Agora o que no acho direito  empatar o servio dos outros.
- Escute, Paulo, soluou Madalena. Est enganado. No tem razo, garanto que no tem razo. Minha tia  uma criatura digna.
- Efetivamente, ela tem uma espcie de dignidade, s vezes, mas a dignidade nela dura pouco. Madalena prosseguiu:
- No conheo ningum que trabalhe mais que Dona Glria.
- Ora essa! bradei com um espanto que me levantou do sof.
- Vai sair?
Pensando bem, creio que no foi o espanto que me levantou. Provavelmente foi o costume que eu
122
tinha de me dirigir ao campo todos os dias pela manh.  verdade que o meu esprito estava completamente afastado da lavoura, mas Dona Glria e Madalena j me haviam 
retardado quase uma hora, e o movimento que fiz correspondia a uma necessidade que se tornou clara quando me pus em p.
- Vamos?
Madalena acompanhou-me e em caminho falou desta forma:
- Voc, pelo que me disse, principiou a vida muito pobre.
- Sei l como principiei! Quando dei por mim, era guia de cego. Depois vendi as cocadas da velha Margarida. J lhe contei.
- J. Lutou muito. Mas acredite que Dona Glria tem desenvolvido mais atividade que voc. - Estou esperando. Que fez ela?
- Tomou conta de mim, sustentou-me e educou-me.
- S?
- Acha pouco?  porque voc no sabe o esforo que isso custou. Maior que o seu para obter So Bernardo. E o que  certo  que Dona Glria no me troca por So Bernardo.
Vaidade. Professorinhas de primeiras cola normal fabricava s dzias. Uma como So Bernardo era diferente.
- No h comparao.
- Morvamos em casa de jogador de espada, disse Madalena. Havia duas cadeiras. Se chegava visita, Dona Glria sentava-se num caixo de querosene. A saleta de jantar 
era o meu gabinete de estudo. A mesa tinha uma perna quebrada e encostava-se  parede. Trabalhei ali muitos anos.  noite baixava a luz do candeeiro, por economia. 
Dona
letras a espropriedade
123
Glria ia para a cozinha resmungar, chorar, lastimar-se. O hbito que ela tem de cochichar e caminhar nas pontas dos ps vem desse tempo. Dormamos as duas numa 
cama estreita. Se eu adoecia, Dona Glria passava a noite sentada; quando no agentava de sono, deitava-se no cho.
Madalena calou-se. Impressionado com pobreza, exclamei:
- Diabo! Vocs comeram uma cachorra insossa. - Quem no adoecia era Dona Glria, continuou Madalena. Eu saa para a escola e ela punha o xale, ia cavar a vida. Tinha 
muitas profisses. Conhecia padres e fazia flores, punha em ordem alfabtica os assentamentos de batizados, enfeitava altares. Conhecia desembargadores e copiava 
os acrdos do tribunal. A noite vendia bilhetes no Floriano. E como o padeiro nosso vizinho era analfabeto, escriturava as contas dele num caderno de balco. Est 
claro que, dedicando-se a tantas ocupa= es midas, era mal paga.
- Deve compreender. . , murmurei vagamente, olhando os dorsos vermelhos das novilhas mergulhadas no capim-gordura.
Madalena interrompeu-me:
- Enos exames ainda tinha tempo de cabalar os examinadores, Deus e o mundo para eu no ser reprovada. Dona Glria  incansvel. O que ela no pode  dedicar-se a 
um trabalho continuado: consome-se em trabalhos incompletos.  por isso a inquietao em que vive. Aqui no h os bilhetes do cinema, os acrdos do tribunal, os 
assentamentos de batizados, o caderno de contas do padeiro. Dona Glria v mquinas e homens que funcionam como as mquinas. Entretanto Dona Glria procura ser til: 
vai  igreja, pe flores nos altares e limpa os vidros
aquela
124
das imagens na sacristia; tenta cozinhar e no se entende com Maria das Dores; oferece-se para ajudar Seu Ribeiro; j experimentou escrever em mquina.
Um caminho rodou em direo  serraria; vinham da mata pancadas secas de machado; carros de bois chiavam para os lados de Bom-Sucesso.
- Como tenho dito, no concordo com esse esbanjamento de energia. A gente deve habituar-se a fazer uma coisa s.
- Dona Glria nada ganharia se se aperfeioasse em vender bilhetes no cinema ou escrever os batizados: a paga seria sempre insignificante.
- Por que no se empregou em ofcio mais rendoso?
- Difcil. Demais  necessrio haver quem venda os bilhetes e copie os acrdos.
Calei-me e no senti nenhuma simpatia  pobre da Dona Glria. Continuei a julg-la uma velha bisbilhoteira e de mos lastimveis, que deitavam a perder o que pegavam. 
Aquelas ocupaes espalhadas aborreciam-me. Levantei os ombros. E, para no descontentar Madalena:
- Pode ser que voc tenha razo. Eu discordo. Mas enfim cada qual tem l o seu modo de matar pulgas.
125
Captulo vinte e trs
Era domingo, de tarde, e eu voltava do descaroador e da serraria, onde tinha estado a arengar com o maquinista. Um volante empenado e um d namo que emperrava. 
O homem prometera endireitar tudo em dois dias. Contratempo. Montes de madeira, algodo enchendo os paiis.
- Desleixados.
 beira do riacho, topei a velha Margarida sentada numa pedra, lavando as canelas finas como gravetos.
- Boa tarde, Me Margarida.
- Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, respondeu a negra procurando reconhecer-me com o nariz e com a orelha.
Descobri-me entre cheiros e rudos: - An!
- Como vai isso, Me Margarida? A sade?
- Aqui vamos dando, meu filho. Melhor do que mereo a Deus, disse a velha enxugando na saia de riscado os cambitos das pernas.
- Falta alguma coisa l no rancho?
- Falta nada! Tem tudo, a sinh manda tudo. Um despotismo de luxo: lenis, sapatos, tanta roupa! Para que isso? Sapato no meu p no vai. E no
127
me cubro. S preciso uma esteira. Uma esteira e o fogo.
- Est direito, Me Margarida. Passe bem.
E sa, agastado com Madalena. Avistei na outra banda Marciano, que tangia o gado.
- Espera l.
Atravessei a pinguela e fui ver o ltimo produto limosino-caracu.
- Magreiro.
No estava, mas achei que estava. - No me responda, entupa-se.
A culpada era Madalena, que tinha oferecido  Rosa um vestido de seda.  verdade que o vestido tinha um rasgo. Mas era disparate.
- Deitasse fora, foi o que eu disse a Madalena. Se estava estragado, era deitar fora. No  pelo prejuzo,  pelo desarranjo que traz a esse povinho um vestido de 
seda.
Madalena respondeu-me com quatro pedras na mo, e ficamos de venta inchada uma semana. Eu por mim remo um rancor excessivo.
O telhado da serraria era uma ndoa vermelha que as chuvas, aqui e ali, haviam tingido de preto. Na outra margem do riacho a cabea curvada de Margarida mexia-se 
lentamente por cima das hastes do capim. E, subindo uma vereda, a figurinha
Marciano colava-se s reses.
- Estpida! exclamei com raiva. E pensei no vestido da Rosa, nos lenis da velha Margarida.
- Desperdcio.
Depois recordei o volante e o dnamo. - Estpida!
Est visto que Madalena no tinha nada com o descaroador e a serraria, mas naquele momento no
de
sapatos e nos
128
refleti nisso: misturei tudo e a minha clera aumentou. Uma clera despropositada. Esqueci os presentes que, h alguns anos, a Rosa me comeu (p-dearroz, voltas 
de conta) e as despesas que fiz com Margarida, at automvel ao serto, at clichs para o jornal do Gondim. O que me pareceu foi que Madalena estava gastando  
toa.
- A toa, percebem? Repeti para convencer-me: - A toa. Desperdcio.
Por cima do capim-gordura j no se via a cabecinha branca de Margarida. Num cotovelo do caminho o vulto de Marciano tinha desaparecido. Com o descambar do sol, 
o telhado da serraria estava mais vermelho.
- No seria mau despedir o maquinista. - Que gente!
Concentrei-me no caso do dnamo, que era o que me havia predisposto a considerar prodigalidades os sapatos, os lenis e o vestido de seda. Depois tranqilizei-me. 
Arredar o maquinista, sim senhor, boa soluo.
Demorei-me um instante vendo um casal de papacapins namorando escandalosamente. Uma galinhagem desgraada. Dentro de alguns dias aquilo se descasava, cada qual tomava 
seu rumo, sem dar explicaes a ningum. Que sorte!
E dirigi-me a casa. No alpendre Madalena, Padilha, Dona Glria e Seu Ribeiro conversavam. Com a minha chegada calaram-se.
Puxei uma cadeira e sentei-me longe deles. Era possvel que a palestra no me interessasse, mas suspeitei que estivessem falando mal de mim. Provavelmente. Dona 
Glria sempre com segredinhos ao ouvido de Seu Ribeiro. E Madalena escutando o Pa
129
dilha. O Padilha, que tinha uma alma baixa, na opinio dela. Para o inferno. To bom era um como o outro. Entretidos, animados. Conspirao. Talvez no fosse nada. 
Mas para quem, como eu, andava com a pulga atrs da orelha! Aborrecia.
Estavam constrangidos, certamente adivinhando o que eu pensava. Padilha mastigava com os dentes estragados o sorriso servil.
Levantei-me, encostei-me  balaustrada e comecei a encher o cachimbo, voltando-me para fora, que no interior da minha casa tudo era desagradvel.
No fim do ptio um moleque passou, com um bodoque na mo. Estava ali para que servia a escola. Vadiando, matando passarinhos, num dia de descanso, bom para soletrar 
a cartilha e riscar papel.
Seis contos de tbuas, mapas, quadros 'e outros enfeites de parede. Seis contos!
Carrancudo, olhei de esguelha para Madalena, que ficou sossegada, como se aquilo no tivesse sido feito por ela.
Acendi o cachimbo, furiosamente, e procurei distrair-me. O rancho de Margarida escondia-se entre as folhas das bananeiras. Marciano saiu do estbulo e veio vindo, 
banzeiro, derreando-se; diante da casagrande tirou o chapu e escondeu o. cigarro. A pedreira, l em cima, estava quase invisvel depois que o caminho para ela se 
tinha fechado.
A Prefeitura no queria mais comprar pedras, as construes na fazenda estavam terminadas. E Mestre Caetano, gemendo no catre, recebia todas as semanas um dinheiro 
de Madalena. Sim senhor, uma panqueca. Visitas, remdios de farmcia, galinhas.
- No h nada como ser entrevado. Necessitava,  claro, mas se eu fosse sustentar os necessitados, arrasava-me.
130
Alm de tudo vestido de seda para a Rosa, sapatos e lenis para Margarida. Sem me consultar. 7 viram descaramento assim? Um abuso, um roubo, positivamente um roubo.
Voltei a sentar-me. Madalena entrou a falar com o Padilha, mas no percebi o que diziam. O constrangimento foi desaparecendo. Padilha tinha os olhos baixos.
Por que era que eu no punha o Padilha fora de casa, aquele parasita que me levava cento e cinqenta mil-ris por ms com a tapeao da escola e estava fuxicando, 
visivelmente fuxicando?
Virei o rosto e descansei a vista no ptio, muito alvo, coberto de pedra mida e areia. Andavam ali quela hora pombos como os diabos, voando baixo, passeando, emproados, 
beliscando o cho. Contei uns cinqenta. Perdi a conta, recomecei sem resultado. Eram bem duzentos.
Recordei o tempo em que aquilo s tinha muambs e lama. O riacho, um pouco de gua turva num sulco estreito e tortuoso, derramava-se pela vrzea, empapando o solo. 
E as cercas do Mendona avanando.
Que diferena! Senti desejo de levantar-me e exclamar:
- Vejam isto. Esto dormindo? Acordem. As casas, a igreja, a estrada, o aude, as pastagens, tudo  novo. O algodoal tem quase uma lgua de comprimento e meia de 
largura. E a mata  uma riqueza! Cada p de amarelo! cada cedro! Olhem o descaroador, a serraria. Pensam que isto nasceu assim sem mais nem menos?
Padilha continuava tagarelando com Madalena. Ergui os ombros:
- Para o inferno, para a casa da peste!
Seu Ribeiro aprovava com gravidade as tolices de Dona Glria.
Casimiro Lopes veio sentar-se num degrau da calada. Picando fumo com a faca de ponta e preparando o cigarro de palha, deitava os olhos de co ao prado, ao aude, 
 igreja, s plantaes. Pobre do Casimiro Lopes. Ia-me esquecendo dele. Calado, fiel, pau para toda a obra, era a nica pessoa que me compreendia. Mandou-me um 
sorriso triste. Estirei o beio, dizendo em silncio:
- Isto vai ruim, Casimiro.
Casimiro Lopes arregaou as ventas numa careta desgostosa.
Os outros continuavam a zumbir. Sebo! Uns insetos. No valia a pena prestar ateno a semelhantes insignificncias. Gente besta.
Ergui-me bocejando. O que eu estava era cansado. O dia inteiro no campo, inquirindo, esmiuando. Senti as pernas bambas. Cansado.
A noite chegava. Um pretume no interior da casa. Lembrei-me do dnamo encrencado. Mais esta. Deixei o alpendre e entrei:
- Maria das Dores, acenda os candeeiros.
O pequeno berrava como bezerro desmamado. No me contive: voltei e gritei para Dona Glria e Madalena:
- Vo ver aquele infeliz. Isso tem jeito? A na prosa, e pode o mundo vir abaixo. A criana esgoelando-se!
Madalena tinha tido menino.
132
Captulo vinte e quatro
Fazia dois anos que eu estava casado, e por isso Joo Nogueira, Padre Silvestre e Azevedo Gondim jantavam conosco.
Ora, exatamente nesse dia repreendi Padilha e ele me gaguejou umas desculpas a que no liguei importncia, mas que depois de algumas horas cresceram muito.
-  Padilha, chegue c, disse-lhe de mnh no jardim, onde ele colhia flores. Ningum aqui est preso. Se o servio lhe desagrada,  arribar.
- Por qu, Seu Paulo? exclamou Lus Padilha atordoado.
- Ora por Olhe o relgio.
- Foi a Dona Madalena que mandou tirar umas rosas.
- Voc  jardineiro? A Dona Madalena no d ordens. Voc me anda gastando o tempo com falatrios!
- Isso no  comigo, defendeu-se Padilha. Queixe-se dela. A moa me pediu umas flores para enfeitar a mesa,  tarde. Que  que eu havia de fazer? Havia de negar? 
E quanto s conversas, Seu Paulo compreende. Uma senhora instruda meter-se nestas
qu? Apanhando flores, homem!
133
bibocas! Precisa uma pessoa com quem possa entreter de vez em quando palestras amenas e variadas. Achei graa. E no prestei mais ateno a Padilha, que, espetando 
os dedos nos espinhos, devastou uma roseira,  pressa, e escapuliu-se. Palestras amenas!
Mais tarde, no escritrio, uma idia indeterminada saltou-me na cabea, esteve por l um instante quebrando loua e deu o fora. Quando tentei agarr-la, ia longe. 
Interrompi a leitura da carta que tinha diante de mim e, sem saber por qu, olhei Madalena desconfiado. Estava de p, encostada  carteira, mexia distrada as folhas 
do razo e contemplava pela janela os paus-d'arco distantes.
Maquinalmente, assinei o papel; Madalena estendeu-me outro, maquinalmente. Nisto a idia voltou. Movia-se, porm, com tanta rapidez que no me foi possvel distingui-la. 
Estremeci, e pareceu-me que a cara de Madalena estava mudada. Mas a impresso durou pouco.
Embrenhei-me no trabalho e,  tarde, quando os amigos desceram do automvel, sentia-me perfeitamente tranqilo.
- Ora, sejam bem aparecidos.
Como no eram de cerimnia, levei-os para o interior, fui matar a sede do Gondim, que quando chega a So Bernardo, exige conhaque.
Durante o jantar, estiveram todos muito animados. E at eu, que ignoro os assuntos que eles debatiam, entrei na dana.
Para comear, Azevedo Gondim, a quem o conhaque tinha tirado as peias da lngua, elogiou a vida campestre:
- Isto  que ! Vejam se na cidade, ciscando no
134
fundo dos quintais, se criava um peru deste tamanho. Que bicho fornido! Benza-o Deus.
Dona Glria deu um muxoxo e desviou a vista do centro da mesa onde, acocorado na travessa, um peru recebia aqueles louvores despropositados. Padre Silvestre acompanhou 
o movimento de Dona Glria e deu com os olhos nos canteiros do jardim e nas alamedas do pomar.
- Realmente deve ser uma delcia viver neste paraso. Que beleza!
- Para quem vem de fora, atalhei. Aqui a gente se acostuma. Afinal no cultivo isto como enfeite. para vender.
- As flores tambm? perguntou Azevedo Gondim.
- Tudo. Flores, hortalias, fruta...
- Est a! exclamou Padre Silvestre balanando a cabecinha grisalha e enrugando a testa estreita. O que  ter senso! Se todos os brasileiros pensassem assim, no 
estaramos presenciando tanta misria.
- Poltica, Padre Silvestre? fez Joo Nogueira sorrindo.
Padre Silvestre arregalou os olhinhos baos:
- Por que no? O senhor h de confessar que estamos  beira de um abismo.
Padre Silvestre  desorientado. Com uma freguesia trabalhosa, anda no mundo da lua. Danadamente liberal.
Padilha meteu o bedelho na conversa: - Apoiado.
- Um abismo, repetiu Padre Silvestre.
- Que abismo? perguntou Azevedo Gondim. O reverendo estudou uma resposta enrgica:
- Isso que se v.  a falncia do regime. Desonestidades, patifarias.
135
- Quais so os patifes? inquiriu Joo Nogueira. Padre Silvestre estirou o beio inferior e amoitouse. As opinies dele so as opinies dos jomais. Como, porm, 
essas opinies variam, Padre Silvestre, impossibilitado de admitir coisas contraditrias, l apenas as folhas da oposio. Acredita nelas. Mas experimenta s vezes 
dvidas. Elas juram que os homens do governo so malandros, e ele conhece alguns respeitveis. Isso prejudica as convices que a letra impressa lhe d. Necessitando 
acomodar as suas observaes com as afirmaes alheias, acha que os polticos, individualmente, so criaturas como as outras, mas em conjunto so uns malfeitores.
- Ora essa! No me compete denunciar ningum. Os fatos so os fatos. Observe.
-  bom apontar, insistiu Joo Nogueira.
- Para qu? A faco dominante est caindo de podre. O pas naufraga, seu doutor.  o que lhe digo: o pas naufraga.
Passei-lhe uma garrafa e informei-me:
- Que foi que lhe aconteceu para o senhor ter essas idias? Desgostos? C no meu fraco entender, a gente s fala assim quando a receita no cobre a despesa. Suponho 
que os seus negcios vo bem.
- No se trata de mim. So as finanas do Estado que vo mal. As finanas e o resto. Mas no se iludam. H de haver uma revoluo!
- Era o que faltava. Escangalhava-se esta gorra.
- Por qu? perguntou Madalena.
- Voc tambm  revolucionria? exclamei mau modo.
- Estou apenas perguntando por qu.
- Ora por qu! Porque o crdito se sumia, o
136
cmbio baixava, a mercadoria estrangeira ficava pela hora da morte. Sem falar na atrapalhao poltica. - Seria magnfico, interrompeu Madalena. Depois se endireitava 
tudo.
- Com certeza, apoiou Lus Padilha. - Vocs sabem o que esto dizendo?
- O que admira  Padre Silvestre desejar a revoluo, disse Nogueira. Que vantagem lhe traria ela?
- Nenhuma, respondeu o vigrio. A mim no traria vantagem. Mas a coletividade ganharia muito. - Esperem por isso, atalhou Azevedo Gondim. Os senhores esto preparando 
uma fogueira e vo assar-se nela.
- Literatura! resmungou Padilha.
- Literatura no, gritou Azevedo Gondim. Se rebentar a encrenca, h de sair boa coisa, hem, Nogueira?
- O fascismo.
- Era o que vocs queriam. Teremos o comunismo.
Dona Glria benzeu-se e Seu Ribeiro opinou: - Deus nos livre.
- Tem medo, Seu Ribeiro? perguntou Madalena sorrindo.
- J vi muitas transformaes, excelentssima, e todas ruins.
- Nada disso, asseverou Padre Silvestre. Essas doutrinas exticas no se adaptam entre ns. O comunismo  a misria, a desorganizao da sociedade, a fome.
Seu Ribeiro passou os dedos pela careca lustrosa: - No tempo de Dom Pedro, corria pouco dinheiro, e quem possua um conto de ris era rico. Mas havia fartura, a 
abbora apodrecia na roa.
137
f
Qual seria a opinio de Madalena?
- A Padre Silvestre tem razo, concordou Gondim. A religio  um freio.
- Bobagem! disse Nogueira. Quem  cavalo para precisar freio?
Qual seria a religio de Madalena? Talvez nenhuma. Nunca me havia tratado disso.
- Monstruosidade.
E repeti baixinho, lentamente e sem convico: - Monstruosidade!
Materialista. Lembrei-me de ter ouvido Costa Brito falar em materialismo histrico. Que significava materialismo histrico?
A verdade  que no me preocupo muito com o outro mundo. Admito Deus, pagador celeste dos meus trabalhadores, mal remunerados c na terra, e admito o Diabo, futuro 
carrasco do ladro que me furtou uma vaca de raa. Tenho portanto um pouco de religio, embora julgue que, em parte, ela  dispensvel num homem. Mas mulher sem 
religio  horrvel.
Comunista, materialista. Bonito casamento! Amizade com o Padilha, aquele imbecil. "Palestras amenas e variadas." Que haveria nas palestras? Reformas sociais, ou 
coisa pior. Sei l! Mulher sem religio  capaz de tudo.
- Sem dvida, respondi a uma lengalenga que Padre Silvestre me infligia.
Seu Ribeiro e Azevedo Gondim amolavam-se, com pachorra. Dona Glria cochilava. Padilha fumava a um canto.
- Provavelmente.
Creio que disse disparate, porque padre Silvestre divergiu e sapecou-me uma demonstrao incompreensvel.
140
Procurei Madalena e avistei-a derretendo-se e sorrindo para o Nogueira, num vo de janela.
Confio em mim. Mas exagerei os olhos bonitos do Nogueira, a roupa bem-feita, a voz insinuante. Pensei nos meus oitenta e nove quilos, neste rosto vermelho de sobrancelhas 
espessas. Cruzei descontente as mos enormes, cabeludas, endurecidas em muitos anos de lavoura. Misturei tudo ao materialismo e ao comunismo de Madalena e comecei 
a sentir cimes.
Captulo vinte e cinco
Comecei a sentir cimes. O meu primeiro desejo foi agarrar o Padilha pelas orelhas e deit-lo fora, a pontaps. Mas conservei-o para vingar-me. Arredei-o de casa, 
a bem dizer prendi-o na escola. L vivia, l dormia, l recebia alimento, bia fria, num tabuleiro.
Estive quatro meses sem lhe pagar o ordenado. E quando o vi sucumbido, magro, com o colarinho sujo e o cabelo crescido, pilheriei:
- Tenha pacincia. Logo voc se desforra. Voc  um apstolo. Continue a escrever os contozinhos sobre o proletrio.
O infeliz defendia-se. Com as humilhaes continuadas, limitava-se por fim a engolir em seco. Um dia chorou, pediu-me soluando que lhe arranjasse uma colocao 
no fisco estadual.
- Impossvel, Padilha. Espere o soviete. Voc se colocar com facilidade na guarda vermelha. Quando isso acontecer, no se lembre de mim no, Padilha, seja camarada.
Na casa-grande, que Tubaro e Casimiro Lopes guardavam, a vida era uma tristeza, um aborrecimento. Dona Glria passava as tardes debaixo das laranjeiras, empalhando-se 
com brochuras e folhe
143
tins. Madalena bordava e tinha o rosto coberto de sombras.
s vezes as sombras se adelgaavam. E findo o trabalho, tudo convidava a gente s conversas moles, aos cochilos, ao embrutecimento.
Uma aragem corria. Vinham-me arrepios bons, desejo de empreguiar-me. Via o monte, que a fita vermelha da estrada contorna, a mata, o algodoal, a gua parada do 
aude.
Madalena soltava o bordado e enfiava os olhos na paisagem. Os olhos cresciam. Lindos olhos.
Sem nos mexermos, sentamos que nos juntvamos, cautelosamente, cada um receando magoar o outro. Sorrisos constrangidos e gestos vagos.
Eu narrava o serto. Madalena contava fatos da escola normal. Depois vinha o arrefecimento. Infalvel. A escola normal! Na opinio do Silveira, as normalistas pintam 
o bode, e o Silveira conhece instruo pblica nas pontas dos dedos, at compe regulamentos. As moas aprendem muito na escola normal.
No gosto de mulheres sabidas. Chamam-se intelectuais e so horrveis. Tenho visto algumas que recitam versos no teatro, fazem conferncias e conduzem um marido 
ou coisa que o valha. Falam bonito no palco, mas intimamente, com as cortinas cerradas, dizem:
- Me auxilia, meu bem.
Nunca me disseram isso, mas disseram ao Nogueira. Imagino. Aparecem nas cidades do interior, sorrindo, vendendo folhetos, discursos, etc. Provavelmente empestaram 
as capitais. Horrveis.
Madalena, propriamente, no era uma intelectual. Mas descuidava-se da religio, lia os telegramas estrangeiros.
144
E eu me retraa, murchava.
Requebrando-se para o Nogueira, ao p da janela, sorrindo! Sorrindo exatamente como as outras, as que fazem conferncias. Perigo. Quem se remexer para Joo Nogueira 
estrepa-se. Bom advogado, negcios direitos, sim sim, no no; mas no gnero mulher  uma rede, no deita gua a pinto. E aquela conversa teria sido a primeira? 
Antes da minha bruta cabeada, eles se entendiam. Talvez namorassem. Quando, em casa do Dr. Magalhes, eu tinha encontrado Madalena, Joo Nogueira estava l. Tapado, 
o Dr. Magalhes, tapadssimo. Escuta-lo  pior que ouvir serrar madeira. "Sou juiz, entende? Juiz. Levanto-me pela manh. . . " O Nogueira, de olho duro, gramando 
aquilo! Interesse. Comeara a falar em poltica, Madalena levantara a cabea, curiosa. E, com dois anos de casada, num vo de janela, desmanchava-se toda para ele.
Erguia-me, insultava-a mentalmente: - Perua!
At com o Padilha! Como diabo tinha ela coragem de se chegar a uma lazeira como o Padilha? A questo social.
- Est aqui para a questo social. O que h  sem-vergonheza.
Depois a colaborao no jornal do Gondim. Continuava a colaborar. Pouco, mas continuava. O Gondim e ela tinham sido unha com carne. Lembram-se da tarde em que ele 
me deu parabns, estupidamente? Familiaridade. E discutiam as pernas e os peitos dela!
Eu tinha razo para confiar em semelhante mulher? Mulher intelectual.
E a minha cara devia ser terrvel, porque Madalena empalidecia e dava para tremer.
145
a;
Se eu soubesse . . . Soubesse o qu! H l marido que saiba nada?
Era possvel que os caboclos do eito estivessem mangando de mim. At Marciano e a Rosa comentariam o caso, na cama, de noite.
O Marciano conheceria as minhas relaes com a Rosa? No conhecia. Tive sempre o cuidado de mand-l  cidade, a compras, oportunamente. E talvez no quisesse conhecer. 
Tambm se podia admitir que fosse dotado de pouca penetrao.
- Enfim certeza, certeza de verdade, ningum tem.
Que diria Seu Ribeiro? Que diria Dona Glria? Afastava-me, lento, ia ver o pequeno, que engatinhava pelos quartos, s quedas, abandonado. Acocorava-me e examinava-o. 
Era magro. Tinha os cabelos louros, como os da me. Olhos agateados. Os meus so escuros. Nariz chato. De ordinrio as crianas tm o nariz chato.
Interrompia . o exame, indeciso: no havia sinais meus: tambm no havia os de outro homem.
E o pequeno continuava a arrastar-se, caindo, chorando, feio como os pecados. As perninhas e os bracinhos eram finos que faziam d. Gritava dia e noite, gritava 
como um condenado, e a ama vivia meio doida de sono. s vezes ficava roxo de berrar, e receei que estivesse morrendo quando Padre Silvestre lhe molhou a cabea na 
pia. Com a dentio encheu-se de tumores, cobriram-no de esparadrapos: direitinho uma rs casteada. Ningum se interessava por ele. Dona Glria lia. Madalena andava 
pelos cantos, com as plperas vermelhas e suspirando. Eu dizia comigo:
- Se ela no quer bem ao filho!
E o filho chorava, chorava continuadamente. Ca
146
simiro Lopes era a nica pessoa que lhe tinha amizade. Levava-o para o alpendre e l se punha a papaguear com ele, dizendo histrias de onas, cantando para o embalar 
as cantigas do serto. O menino trepava-lhe s pernas, puxava-lhe a barba, e ele cantava:
Eu nasci de sete meses, Fui criado sem mamar Bebi leite de cem vacas Na porteira do curral.
Boa alma, Casimiro Lopes. Nunca vi ningum mais simples. Estou convencido de que no guarda a lembrana do mal que pratica. Toda a gente o julga uma fera. Exagero. 
A ferocidade aparece nele raramente. No compreende nada, exprime-se mal e  crdulo como um selvagem.
147
Captulo vinte e seis
Fui indo sempre de mal a pior. Tive a impresso de que me achava doente, muito doente. Fastio, inquietao constante e raiva. Madalena, Padilha, Dona Glria, que 
trempe! O meu desejo era pegar Madalena e dar-lhe pancada at no cu da boca. Pancadas em Dona Glria tambm, que tinha gasto anos trabalhando como cavalo de matuto 
para criar aquela cobrinha.
Os fatos mais insignificantes avultaram em demasia. Um gesto, uma palavra -toa logo me despertavam suspeitas.
Mulher de escola normal! O Silveira me tinha prevenido, indiretamente. Agora era agentar as conseqncias da topada, para no ser besta.
Agentar! Ora agentar! Eu ia l continuar a agentar semelhante desgraa? O que me faltava era uma prova: entrar no quarto de supeto e v-la na cama com outro.
Atormentava-me a idia de surpreend-la. Comecei a mexer-lhe nas malas, nos livros, e a abrirlhe a correspondncia. Madalena chorou, gritou, teve um ataque de nervos. 
Depois vieram outros ataques, outros choros, outros gritos, choveram descomposturas e a minha vida se tornou um inferno.
149
 -i r s
Um dia, de passagem pela fazenda, o Dr. Magalhes almoou comigo. Espreitando-o, notei que as amabilidades dele para Madalena foram excessivas. Efetivamente nas 
palavras que disseram no descobri mau sentido; a inteno estava era nos modos, nos olhares, nos sorrisos. Houve, segundo me pareceu, cochichos e movimentos equvocos.
 noite no consegui dormir. Passei horas sentado, odiando Madalena, que se enroscava num canto da cama, as pernas encolhidas apertando Oestmago.
Com o Dr. Magalhes, homem idoso! Considerei que tambm eu era um homem idoso, esfreguei a barba, triste. Em parte, a culpa era minha: no me tratava. Ocupado com 
o diabo da lavoura, ficava trs, quatro dias sem raspar a cara. E quando voltava do servio, trazia lama at nos olhos: dem por visto um porco. Metia-me em gua 
quente, mas no havia esfregao que tirasse aquil tudo.
Que mos enormes! As palmas eram enormes, gretadas, calosas, duras como casco de cavalo. E os dedos eram tambm enormes, curtos e grossos. Acariciar uma fmea com 
semelhantes mos!
As do Dr. Magalhes, homem de pena, eram macias como pelica, e as unhas, bem aparadas, certamente no arranhavam. Se ele s pegava em autos!
Madalena ressonava. To franzina, to delicada! Ultimamente ia emagrecendo.
Levantei-me e aproximei-me da luz. As minhas mos eram realmente enormes. Fui ao espelho. Muito feio, o Dr. Magalhes; mas eu, naquela vida dos mil diabos, berrando 
com os caboclos o dia inteiro, ao sol, estava medonho. Queimado. Que sobrancelhas! O cabelo era grisalho, mas a barba embranquecia. Sem me barbear! Que desleixo!
150
No dia seguinte encontrei Madalena escrevendo. Avizinhei-me nas pontas dos ps e li o endereo de Azevedo Gondim.
- Faz favor de mostrar isso?
Madalena agarrou uma folha que ainda no havia sido dobrada.
- No tem que ver. S interessa a mim.
- Perfeitamente. Mas  bom mostrar. Faz favor? - J no lhe disse que s interessa a mim? Que arrelia!
- Mostra a ombros.
Madalena defendia-se, ora levantando com os braos estirados, ora escondendo-o das costas:
- V para o inferno, trate da sua vida. Aquela resistncia enfureceu-me:
- Deixa ver a carta, galinha. Madalena desprendeu-se e entrou quarto, gritando:
- Canalha!
Dona Glria chegou  porta assustada:
- Pelo amor de Deus! Esto ouvindo l Perdi a cabea:
- V amolar a puta que a pariu. Est mouca, a, com a sua carinha de santa? >r isto: puta que a pariu. E se achar ruim, rua. A senhora e a boa de sua sobrinha, compreende? 
Puta que pariu as duas. Dona Glria fugiu com o leno nos olhos.
- Miservel! bradou Madalena. E eu s sabia dizer:
- Mostra a carta, perua.
Madalena rasgou o papel em pedacinhos e atirou-os pela janela:
carta, insisti segurando-a pelos
o papel atrs
a correr pelo
fora.
- Miservel! Saiu como um gritou:
- Assassino! Atordoado, murmurei: - Cachorra!
redemoinho. No corredor ainda
E fiquei olhando os pedaos de papel que na manh de vento esvoaavam pelo jardim, entre as folhas das roseiras. Longe, no salo ou na cozinha, Madalena continuava 
a gritar:
- Assassino!
Os outros nomes feios que ela me havia dito no tinham significao. Aquele tinha uma significao. Era o que me atormentava. Mulheres, criaturas sensveis, no 
devem meter-se em negcios de homens.
Antes dela, a nica pessoa que, na tbua da venta, me tachou de assassino foi Costa Brito, pela seo livre da Gazeta. Justamente quando acabava de darlhe o troco, 
tinha-me encangado a Madalena. Canga infeliz! No era melhor que eu tivesse quebrado uma perna? Mais vale uma boa amigao que certos casamentos.
Assassino! Como achara ela uma ofensa to inesperada? Acaso? Ou teria lido o jornal do Brito? O mais provvel era Padilha haver referido alguns mexericos que por 
a circulam. Sim senhor! Estava o Padilha mudando em indivduo capaz de fazer mal. Que graa! O Padilha! Recordei-me do caso do Jaqueira, mas a recordao desapareceu, 
e comecei a dizer mentalmente:
- Assassino! Assassino!
Encolerizei-me por estar tolices.
152
perdendo tempo com
- Madalena, Dona Glria, Padilha, puta que pariu a todos.
Ali malucando, e a gente do eito  vontade, cobrindo mato. Espreguicei-me. Uma noite sem dormir! Depois estremeci e olhei as mos. As minhas mos eram enormes, com 
efeito.
O Jaqueira.. . Ah! sim! tinha sido anos atrs. De repente achei que Madalena estava sendo ingrata com o pobre do Casimiro Lopes. Afinal... Assassino! Que sabia ela 
da minha vida? Nunca lhe fiz confidncias. Cada qual tem os seus segredos. Seria interessante se andssemos dizendo tudo uns aos outros. Cada um tem os seus achaques. 
Madalena, que vinha da escola normal, devia ter muitos. Podia eu conhecer o passado dela? O presente era ruim, via-se que era ruim.
Ainda em cima ingrata. Casimiro Lopes levava o filho dela para o alpendre e embalava-o, cantando, aboiando. Que trapalhada! que confuso! Ela no tinha chamado assassino 
a Casimiro Lopes, mas a mim. Naquele momento, porm, no vi nas minhas idias nenhuma incoerncia. E no me espantaria se me afirmassem que eu e Casimiro Lopes ramos 
uma pessoa s.
O Padilha! Cabra ruim  que desgraa um homem. Quem havia de supor que o Jaqueira ... Outra vez o Jaqueira. Aqui vai, resumido, o caso do Jaqueira. Jaqueira era 
um sujeito empambado, e os moleques, as quengas de pote e esteira, batiam nele. Jaqueira recebia as pancadas e resmungava: - Um dia eu mato um peste.
Toda a gente dormia com a mulher do Jaqueira. Era s empurrar a porta. Se a mulher no abria logo, Jaqueira ia abrir, bocejando e ameaando:
- Um dia eu mato um peste.
153
Matou. Escondeu-se por detrs de um pau e descarregou a lazarina bem no corao de um fregus. No jri, cortaram a cabea por seis votos (patifaria). Saiu da cadeia 
e tornou-se um cidado respeitado. Nunca mais ningum buliu com o Jaqueira.
154
Captulo vinte e sete
Quando serenei, pareceu-me que houvera barulho sem motivo. O Dr. Magalhes tinha feitio para dirigir amabilidades a qualquer senhora sem, que ningum desconfiasse 
dele. E o papel endereado ao Gondim devia ser literatura para composio. No era seno isso. Coisas to fteis e em conseqncia um arranca-rabo estpido, com 
desaforo grosso, Maria das Dores ouvindo, Seu Ribeiro ouvindo. Sebo!
Madalena era honesta, claro. No mostrara o papel para no dar o brao a torcer, por dignidade, clarssimo. Cime idiota.
Mais bem-comportada que ela s num convento. Circunspecta, sem n pelas costas. E caridosa, de quebra, at com os bichinhos do mato. A respeito de pensamento nada 
se sabia, que no pensamento de outra pessoa ningum vai; mas quanto a palavras e obras era inatacvel. Podia ter-me dito insultos piores. Pior que assassino? Muito 
duro. Mas no me queixava dela, queixava-me do Padilha, aquele descarado.
Depois da violncia da manh, sentia-me cheio de otimismo, e a brutalidade que h em mim virava-se para o mestre-escola.
155
Sem-vergonha! Era despedi-lo.  tarde fui tratar disso.
Padilha ofereceu-me a cadeira, sentou-se num tamborete e, srio, em atitude de galinha assada:
- s suas ordens, Seu Paulo Honrio.
- Uma notcia desagradvel. No preciso mais dos seus servios.
- Por qu? disse Padilha aturdido. Que foi que eu fiz?
- Ora essa! Pergunta a mim? Voc deve saber o que fez.
- No fiz nada. Que  que havia de fazer, trancado? A minha sujeio  maior que a dos presos da cadeia. No saio. Se me afasto vinte passos,  com o Casimiro no 
cs das calas. Que foi que eu fiz? Aponte uma falta.
- No dou explicaes. Padilha baixou a cabea:
- Est certo. Sempre na linha, e por fim uma desta! Entra ano, sai ano, e o trouxa do empregado no toco, direito como um fuso, cumprindo as obrigaes, procurando 
agradar. Quando espera aumento de ordenado, l vem pontap.
Levantou-se:
- D-me ao menos alguns dias para arrumar os troos e cavar um osso. Eu no posso sair assim com uma mo atrs, outra adiante.
Ergui-me tambm:
- Tem um ms para se retirar.
- Muito obrigado, balbuciou Padilha. A gente ainda deve agradecer. Bem-feito. Se eu no servisse de espoleta a sua mulher, no acontecia isto. Indignou-se.
- Espoleta! "V buscar um livro, Seu Padilha." Eu ia. "Traga papel, Seu Padilha." Eu trazia. "Co
156
pie esta pgina, Seu Padilha." Eu copiava. "Apanhe umas laranjas, Seu Padilha." At apanhar laranjas! Espoleta! Aquela mulher foi a causa da minha desgraa.
- Emende a lngua, ordenei.
- Que foi que eu disse? Que era espoleta. Era. Por isso o senhor me demite.
- Nada! O que h  que voc andava fazendo fuxicos, homem. Andava intrigando, homem. Andava tecendo enredos, homem.
Lus Padilha embatucou. Depois, de um flego: - Quais so as intrigas, os fuxicos, os enredos? O senhor no mostra um. Eu sou culpado de sua mulher ter idias avanadas? 
Se  isso ...
- No, no  isso. - Ento no sei.
- Escute, Padilha. Eu estou pegando cinqenta anos e tenho corrido mundo. Voc no me bota papa na lngua no. Vejo muita coisa e fecho os olhos, filho de Deus. 
Se eu afirmo que voc vivia com fuxicos,  porque voc vivia com fuxicos.
Padilha catava pulgas:
- Pois diga. A minha conscincia no me acusa. Diga. Quando a gente sabe, diz.
- Deixe de chove-no-molha, repliquei troando com ele. Voc no contou invenes a Madalena? Voc no falou de mim? Falou ou no falou?
- No falei no, Seu Paulo. Se eu no sei nada! - Tire o cavalo da chuva, rapaz. Eu ouvi. Padilha encabulou:
- Est bem. Se o senhor ouviu, no discutimos. Naturalmente ouviu o que eu no disse.
- Ouvi o que voc disse. No teime. Tenho bom ouvido.
157
- Se ouviu, concedeu Padilha, foi a histria da morte do Mendona. Dona Madalena j sabia... - Sabia o qu?
- O que o povo resmunga. Calnias. Eu expliquei tudo e defendi o senhor: "Dona Madalena, isso  um caso antigo, e mexer nele no d vida a ningum. O velho Mendona 
era uma postema, furtava as terras dos vizinhos. Quanto ao que espalham por a, no acredite: so aleives. Seu Paulo tem bom corao e  incapaz de matar um pinto".
Lembrei-me da briga da manh. Exatamente o que eu tinha presumido: mexericos daquele traste. -  Padilha, por que foi que voc disse que Madalena era a causa da 
sua desgraa?
- E o senhor quer negar? Se no fosse ela, eu no perdia o emprego. Foi ela. E, veja o senhor, eu no gostava daquilo. Muitas vezes opinei, sem rebuo: "Dona Madalena, 
Seu Paulo embirra com o socialismo.  melhor a senhora deixar de novidades. Essas conversas no servem". Est a. Papagaio come milho, periquito leva a fama. O periquito 
sou eu. Fraquejei:
- Que diabo discutiam vocs? O meu cime tinha-se tornado sorriu e respondeu, hipcrita:
- Literatura, poltica, artes, religio. . . Uma senhora inteligente, a Dona Madalena. E instruda,  uma biblioteca. Afinal eu estou chovendo no molhado. O senhor, 
melhor que eu, conhece a mulher que possui.
pblico. Padilha
158
Captulo vinte e oito
"O senhor conhece a mulher que possui." Que frase!
Padilha sabia alguma coisa. Saberia? Ou teria falado  toa?
Conjecturas. O que eu desejava era ter uma certeza e acabar depressa com aquilo. Sim ou no. "O senhor conhece a mulher que possui." Conhecia nada! Era justamente 
o que me tirava o apetite. Viver com uma pessoa na mesma casa, comendo na mesma mesa, dormindo na mesma cama, e perceber ao cabo de anos que ela  uma estranha! 
Meu Deus! Mas se eu ignoro o que h em mim, se esqueci muitos dos meus atos e nem sei o que sentia naqueles meses compridos de tortura!
J viram como perdemos tempo em padecimentos inteis? No era melhor que fssemos como os bois? Bois com inteligncia. Haver estupidez maior que atormentar-se um 
vivente por gosto? Ser? no ser? Para que isso? Procurar dissabores! Ser? no ser?
Se eu tivesse uma prova de que Madalena era inocente, dar-lhe-ia uma vida como ela nem imaginava. Comprar-lhe-ia vestidos que nunca mais se acabariam, chapus caros, 
dzias de meias de seda. Seria atencioso, muito atencioso, e chamaria os melhores
159
mdicos da capital para curar-lhe a palidez e a magrm. Consentiria que ela oferecesse roupa s mulheres dos trabalhadores.
E se eu soubesse que ela me traa? Ah! Se eu soubesse que ela me traa, matava-a, abria-lhe a veia do pescoo, devagar, para o sangue correr um dia inteiro.
Mas logo me enjoava do pensamento feroz. Que rendia isso? Um crime intil! Era melhor abandonla, deix-la sofrer. E quando ela tivesse viajado pelos hospitais, 
quando vagasse pelas ruas, faminta, esfrangalhada, com os ossos furando a pele, costuras de operaes e marcas de feridas no corpo, darlhe uma esmola pelo amor de 
Deus.
Seria? no seria?
Insignificncias. No meio das canseiras a morte chega, o diabo carrega a gente, os amigos entortam o focinho na hora do enterro, depois esquecem at os pires que 
filaram.
Que me importavam as opinies do Padilha, de Seu Ribeiro, de Dona Glria, de Marciano? Casimiro Lopes  que no tinha opinio. Quem me dera ser como Casimiro Lopes!
- Isto vai mal, Casimiro f dizia eu com os olhos. Casimiro Lopes concordava, erguendo os ombros.
160
Captulo vinte e nove
Quando as dvidas se tornavam insuportveis, vinha-me a necessidade de afirmar. Madalena tinha. manha encoberta, indubitavelmente.
- Indubitavelmente, indubitavelmente, endem? Indubitavelmente.
As repeties continuadas traziam-me cie de certeza.
Esfregava as mos. Indubitavelmente. que oscilar de um lado para outro.
Via-se muito bem que Dona Glria era viteira. Passadas mansinhas, olhos baixos, voz sumida estava mesmo a preceito para alcoviteira. Antigamente devia ter dado 
com os burros na gua. Alcoviteira, desencaminhara a sobrinha. Sempre de acordo, aquelas duas guas.
Enfim o Padilha tinha sido at camarada. Monologava com raiva:
- Obrigado, Padilha. Sim senhor, boa bisca. chorro em So Bernardo mento dela.
"Aquela mulher foi a causa da minha desgraa." Que falta de respeito! H quem atire semelhante
compreuma espAntes isso
alco
No havia gato nem caque ignorasse o procedi
heresia em cima de uma senhora casada, nas barbas do marido? H? No h. Querem mais claro? Padre Silvestre passou por So Bernardo e eu fiquei de orelha em p, 
desconfiado. Deus me perdoe, desconfiei. Cavalo amarrado tambm come. A infelicidade deu um pulo medonho: notei que Madalena namorava os caboclos da lavoura. Os 
caboclos, sim senhor.
s vezes o bom senso me puxava as orelhas:
- Baixa o fogo, sendeiro. Isso no tem p nem cabea.
Realmente, uma criatura branca, bem lavada, bem vestida, bem engomada, bem aprendida, no ia encostar-se queles brutos escuros, sujos, fedorentos a pituim. Os meus 
olhos me enganavam. Mas se os olhos me enganavam, em que me havia de fiar ento? Se eu via um trabalhador de enxada fazer um aceno a ela!
Com esforo e procurando distrao, conseguia reprimir-me. Era intuitivo que o aceno no podia ser para ela. No podia.
Ora no podia!
- Mulher no vai sabe qual  o macho.
Uma tarde em que a velha Margarida subiu a ladeira a vara e a remo para visitar-nos, vigiei-a uma hora, com receio de que a pobre fosse portadora de alguma carta.
Creio que estava quase maluco.
com carrapato porque no
162
Captulo trinta
 noite parecia-me ouvir passos no jardim. Por que diabo aquele Tubaro no ladrava? O safado do cachorro ia perdendo o faro.
Erguia-me, pegava o rifle, soprava a luz, abria a janela:
- Quem est a?
Seria inimigo, gente dos Gama, do Pereira, do Fidlis? Pouco provvel. As ameaas tinham cessado: eu e Casimiro Lopes crivamos ferrugem. Instintivamente, resguardava-me 
colado  parede. Julgava distinguir um vulto.
-- Quem est a?  bicho de flego ou  marmota? No responde no?
E l ia no silncio um tiro que assustava os moradores, fazia Madalena saltar da cama, gritando. Fechava a janela e acendia o candeeiro.
- Que foi? gemia Madalena aterrada.
- So os seus parceiros que andam rondando a casa. Mas no tem dvida: qualquer dia fica um diabo a estirado.
Madalena abraav-se aos travesseiros, soluando. Um assobio, longe. Algum sinal convencionado. -  assobio ou no ? Marcou entrevista aqui no quarto, em cima de 
mim?  s o que falta. Quer
163
que eu saia? Se quer que eu saia,  dizer. No se acanhe.
Madalena chorava como uma fonte. Entristecia-me. Grosseiro, monstruosamente grosseiro.
E se as passadas e o assobio no fossem por causa dela? Ah! Sendo assim, eu picado para lingia no pagava o que devia. E se as passadas e o assobio no existissem? 
Lembrava-me de uma noite em que me aperreei de verdade e puxei a lambedeira, com medo de um rato. H neste mundo cada engano! E decidia corrigir-me:
- Vamos deixar de choradeira. L por assobiarem no pomar e passearem no jardim no  preciso a senhora se desmanchar em gua.  melhor acabar com essa cavilao.
Madalena chorava, chorava, at que por fim, cansada de chorar, pegava no sono. Encolhia-me  beira da cama, para evitar o contato dela. Quando ia adormecendo, percebia 
o ranger de chave em fechadura e o rumor de telhas arrastadas. Despertava num sobressalto e continha a respirao. Quem estaria futucando portas? Quem estaria destelhando 
a casa?
Aproximava-me de Madalena, observava-lhe o rosto. Teria ouvido? Ou estaria a fingir que dormia? Levantava-me, arrastava uma cadeira, sentava-me. Madalena ressonava.
Com certeza ningum tinha bulido na fechadura nem nas telhas. Maluqueiras de sonho. Talvez as pisadas tambm tivessem sido abuso de sonho. Um pesadelo. Isso. Um 
pesadelo. Era possvel que o assobio fosse grito de coruja.
Uma pancada no relgio da sala de jantar. Que
164
horas seriam? Meia? uma? uma e meia? ou metade de qualquer outra hora?
No podia dormir. Contava de um a cem, e dobrava o dedo mindinho; contava de cem a duzentos, dobrava o seu vizinho; assim por diante, at completar mil e ter as 
duas mos fechadas. Depois contava cem, e soltava o dedo grande; mais cem, o fura-bolo; e quando chegava a dois mil, as duas mos estavam abertas. Repetia a leseira, 
imaginava para cada dedo que se movia um conto de ris de lucro no balano, o que me rendia fortuna imensa, to grande que me enjoava dela e interrompia a contagem.
Segunda pancada no relgio. Uma hora? uma e qmeia? S vendo. Erguia-me, pisava com fora. Madalena continuava a dormir.
Destrancava e trancava a porta do corredor. Tornava a destrancar, tornava a trancar. E examinava o rosto de Madalena. Que sono! Ali descansada, e eu me roendo por 
dentro. Descansada como se tudo estivesse muito direito. Tinha desejo de acord-la, recomear a contenda em que vivamos. Dormir assim, quando eu estava preocupado, 
seriamente preocupado, no era justo. Preocupado com qu? Afinal que fazia ali, com a mo na chave e os olhos esbugalhados para Madalena?
- Por que diabo estou mexendo nisto?
Ah! sim! ver as horas. Empurrava a porta, atravessava o corredor, entrava na sala de jantar. Sempre era alguma coisa saber as horas.
Sentava-me no meu lugar  mesa. No comeo das nossas desavenas todas as noites aqui me sentava, arengando com Madalena. Tnhamos desperdiado tantas palavras!
16.5
- Para que serve a gente discutir, explicar-se? Para qu?
Para qu, realmente? O que eu dizia era simples, direto, e procurava debalde em minha mulher conciso e clareza. Usar aquele vocabulrio, vasto, cheio de ciladas, 
no me seria possvel. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expresses mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes s cobras: 
faziam voltas, picavam e tinham significao venenosa.
166
Captulo trinta e um
Uma tarde subi  torre da igreja e fui ver Marciano procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e  noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente. 
Eu desejava assistir  extino daquelas aves amaldioadas.
L de cima escutava o barulho que Marciano, invisvel, fazia. E, pelas quatro janelinhas abertas aos quatro cantos do cu, contemplava a paisagem. Por uma delas 
via embaixo um pedao do escritrio, uma banca e, sentada  banca, minha mulher escrevendo. Com um ligeiro desvio de olhos, afastava a cena familiar e corriqueira, 
divisava o oito da casa, portas, janelas, a cama de Dona Glria, um canto da sala de jantar. Levantava a cabea e o horizonte compunha-se de telhas, argamassa, 
lambrequins. Mais para cima, campos, serra, nuvens.
O capim-gordura tinha virado grama, e os bois que pastavam nele eram como brinquedos de celulide. O algodoal galgava colinas, descia, tornava a mostrar-se mais 
longe, desbotado. Numa clareira da mata escura, quase negra, desmaiavam na sombra figurinhas de lenhadores.
Uma coruja gritava. E Marciano surgia de escon
167
derijos cheios de treva, o pixaim branco de teias de aranha:
- Mais uma.  - um corujo da peste, Seu Paulo. Eu fungava:
- Em que estar pensando aquela burra? Escrevendo. Que estupidez!
Rosa do Marciano atravessava o riacho. Erguia as saias at a cintura. Depois que passava o lugar mais fundo ia baixando as saias. Alcanava a margem, ficava um instante 
de pernas abertas, escorrendo gua, e saa torcendo-se, com um remelexo de bunda que era mesmo uma tentao.
A distncia arredondava e o sol dourava cocoruPareciam extraordinrias cabeas
tos de montes. de santos.
- Se aquela zo, estaria aqui belezas.
Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser indivduo medianamente impressionvel, convenci-me de que este mundo no  mau. Quinze metros 
acima do solo, experimentamos a vaga sensao de ter crescido quinze metros. E quando, assim agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos ps, plantaes estirando-se 
por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaa que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez at nos ame, porque depende de 
ns, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se h ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque 
devasta a cacete, a convico que temos da nossa fortaleza torna-se estvel e aumenta. Diante disto, uma boneca traando linhas invisveis num papel apenas visvel 
merece pequena
mosca-morta prestasse e tivesse juaproveitando esta catervagem de
168
considerao. Desci, pois, as escadas em paz com Deus e com os homens, e esperava que aqueles pios infames me deixassem enfim tranqilo.
Matutando, penetrei no jardim e encaminhei-me ao pomar, fazendo teno de ver se a poda estava em regra.
Defronte do escritrio descobri no cho uma folha de prosa, com certeza trazida pelo vento. Apanhei-a e corri a vista, sem interesse, pela bonita letra redonda de 
Madalena. Francamente, no entendi. Encontrei diversas palavras desconhecidas, outras conhecidas de vista, e a disposio delas, terrivelmente atrapalhada, muito 
me dificultava a compreenso. Talvez aquilo fosse bem-feito, pois minha mulher sabia gramtica por baixo da gua e era fecunda em riscos e entrelinhas, mas estavam 
riscados perodos certos, e em vo tentei justificar as emendas.
- Ocultar com artifcios o que deve ser evidente! Passeando entre as laranjeiras, esqueci a poda, reli o papel e agadanhei idias indefinidas que se baralharam, 
mas que me trouxeram um arrepio. Diabo! Aquilo era trecho de carta, e de carta a homem. No estava l o nome do destinatrio, faltava o princpio, mas era carta 
a homem, sem dvida.
Lia a folha pela terceira vez, atordoado, detendome nas expresses claras e procurando adivinhar a significao dos termos obscuros.
- Est aqui a prova, balbuciei assombrado. A quem sero dirigidas estas porcarias?
As suspeitas voaram para cima de Joo Nogueira, do Dr. Magalhes, de Azevedo Gondim, do Silveira da escola normal. Reli a carta um peloto de vezes, e enquanto lia, 
praguejava como um condenado, e as fontes me latejavam.
Afinal a noite caiu, no enxerguei mais as letras.
169
Sim senhor! Carta a homem!
Estive um tempo caminhando debaixo das fruteiras.
- Eu sou algum Marciano, bando de filhos das putas?
E voltei furioso, decidido a acabar depressa com aquela infelicidade. Zumbiam-me os ouvidos, danavam-me listras vermelhas diante dos olhos.
Ia to cego que bati com as ventas em Madalena, que saa da igreja.
- Meia-volta, gritei segurando-lhe um brao. Temos negcio.
- Ainda? perguntou Madalena.
E deixou-se levar para a escurido da sacristia. Acendi uma vela e, encostando-me  mesa carregada de santos, sobre o estrado onde Padre Silvestre se paramenta em 
dias de missa:
- Que estava fazendo aqui? Rezando?  capaz de dizer que estava rezando.
- Ainda? repetiu Madalena.
Esperei que ela me sacudisse desaforos, mas enganei-me: ps-se a observar-me como se me quisesse comer com os olhos muito abertos. Ferviam dentro de mim violncias 
desmedidas. As minhas mos tremiam, agitavam-se em direo a Madalena. Apertei-as para conter os movimentos e, com os queixos contrados:
- A senhora escreveu uma carta.
O vento frio da serra entrava pela janela, mordia-me as orelhas, e eu sentia calor. A porta gemia, de quando em quando dava no batente pancadas colricas, depois 
continuava a gemer. Aquilo me irritava, mas no me veio a idia de fech-la. Madalena estava como se no ouvisse nada. E eu, diri
170
gindo-me a ela e a uma litografia pendurada  parede.
- Cuidam que isto vai ficar assim?
O pequeno mais velho do Marciano entrou nas pontas dos ps. Sem me voltar para ele, bradei: - Vai-te embora.
O menino aproximou-se da janela. - Vai-te embora, berrei de novo. Provavelmente o meu aspecto lhe causou estranheza. Balbuciou:
- Fechar a igreja, Seu Paulo.
Percebi que os meus modos eram desarrazoados e respondi com simulada brandura:
- Perfeitamente. Volta mais tarde, ainda  cedo. Nove horas no relgio da sacristia.
O nordeste comeou a soprar, e a porta com fria. Mergulhei os dedos nos cabelos. - Que ests fazendo, peste?
O cabrito fugiu.
Nem sei quanto tempo estive ali, em p. A minha raiva se transformava em angstia, a angstia se transformava em cansao.
- Para quem era a carta?
E olhava alternadamente Madalena e os santos do oratrio. Os santos no sabiam, Madalena no quis responder.
O que me espantava era a tranqilidade que havia no rosto dela. Eu tinha chegado fervendo, projetando mat-la. Podia viver com a autora de semelhante maroteira?
 medida, porm, que as horas se passavam, sentia-me cair num estado de perplexidade e covardia. As imagens de gesso no se importavam com a minha aflio. E Madalena 
tinha quase a impassibilidade delas. Por que estaria assim to calma?
bateu
Afirmei a mim mesmo que mat-la era ao justa. Para que deixar viva mulher to cheia de culpa? Quando ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos.
As minhas mos contraam-se, moviam-se para ela, mas agora as contraes eram fracas e espaadas.
- Fale, exclamei com - Para qu?
- H uma carta. Eu preciso saber, compreende? Meti a mo no bolso e apresentei-lhe a folha, j amarrotada e suja. Madalena estendeu-a sobre a mesa, examinou-a, afastou-a 
para um lado.
- Ento? - J li.
A vela acabou-se. Acendi outra e fiquei com o fsforo entre os dedos at queimar-me.
- Diga alguma coisa.
Pareceu-me que havia ali um equvoco e que, se Madalena quisesse, tudo se esclareceria. O corao dava-me coices desesperados, desejei doidamente convencer-me da 
inocncia dela.
- Para qu? murmurou Madalena. H trs anos vivemos uma vida horrvel. Quando procuramos entender-nos, j temos a certeza de que acabamos brigando.
- Mas a carta? Madalena apanhou gou-mo:
- O resto est no escritrio, na minha banca. Provavelmente essa folha voou para o jardim quando eu escrevia.
- A quem?
- Voc ver. Est em cima da caso para barulho. Voc ver.
- Bem.
voz
mal segura. ,
o papel, dobrou-o e entre
banca.
No
e
172
Respirei. Que fadiga!
- Voc me perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo?
- Julgo que tive as minhas razes. - No se trata disso. Perdoa? Rosnei um monosslabo.
- O que estragou tudo foi esse cime, Paulo. Palavras de arrependimento vieram-me  boca. Engoli-as, forado por um orgulho estpido. Muitas vezes por falta de um 
grito se perde uma boiada. - Seja amigo de minha tia, Paulo. Quando desaparecer essa quizlia, voc reconhecer que ela  boa pessoa.
Eu era to bruto com a pobre da velha!
- Conseqncia desse mal-entendido. Ela tambm tem culpa. Um bocado ranzinza.
- Seu Ribeiro  trabalhador e honesto, voc no acha?
- Acho. Antigamente deu cartas e jogou de mo. Hoje  refugo. Um sujeito decente, coitado.
- E o Padilha. . .
- Ah! no! Um enredeiro. Nem est direito voc torcer por ele. Safadssimo.
- Pacincia! O Marciano ...        Voc  rigoroso com o Marciano, Paulo.
- Ora essa! exclamei enfadado. Que rosrio! - No se zangue, disse Madalena sem erguer a voz.
- O que eu queria ... Sentei-me num banco.
O que eu queria era que ela dvidas.
- Que  que voc queria? sentando-se tambm.
- Sei l!
me livrasse daquelas perguntou Madalena
173
sono embrulhado e penoso. Creio que sonhei com rios cheios e atoleiros.
Quando dei acordo de mim, a vela estava apagada e o luar, que eu no tinha visto nascer, entrava pela . janela. A porta continuava a ranger, o nordeste atirava para 
dentro da sacristia folhas secas, que farfalhavam no cho de ladrilhos brancos e pretos. O relgio tinha parado, mas julgo que dormi horas. Galos cantaram, a lua 
deitou-se, o vento se cansou de gritar  toa e a luz da madrugada veio brincar com as imagens do oratrio.
Ergui-me, o espinhao dodo da posio incmoda. Estirei os braos. Modo, como se tivesse levado uma surra.
Sa, dirigi-me ao curral, bebi um copo de leite. Conversei um instante com Marciano sobre as corujas. Em seguida fui passear no ptio, esperando que o dia clareasse 
de todo.
Realmente a mata, enfeitada de paus-d'arco, estava uma beleza.
Trs anos de casado. Fazia exatamente um ano que tinha comeado o diabo do cime.
A serraria apitou; as suas de Seu Ribeiro surgiram a uma janela; Maria das Dores abriu as portas; Casimiro Lopes apareceu com uma braada de hortalias.
Desci ao aude. Derreado, as cadeiras doendo. Que noite! Despi-me entre as bananeiras, meti-me na gua, mergulhei e nadei.
Quando cheguei a casa, o sol j estava alto. O espinhao ainda me doa. Que noite!
Subindo os degraus da calada, ouvi gritos horrveis l dentro.
- Que diabo de chamego  este?
176
'a.'iri3aitlL3
Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com algumas pessoas soltando exclamaes. Arredei-as e estaquei: Madalena estava estirada 
na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca.
Aproximei-me, tomei-lhe as mos, duras e frias, toquei-lhe o corao, parado. Parado.
No soalho havia mancha de lquido e cacos de vidro.
Dona Glria, cada no tapete, soluava, estrebuchando. A ama, com a criana nos braos, choramingava, Maria das Dores gemia.
Comecei a friccionar as mos de Madalena, tentando reanim-la. E balbuciava:
- A Deus nada  impossvel.
Era uma frase ouvida no campo, dias antes, e que me voltava, oferecendo-me esperana absurda.
Pus um espelho diante da boca de Madalena, levantei-lhe as plpebras. E repetia maquinalmente: - A Deus nada  impossvel.
- Que desastre, Senhor Paulo Honrio, que irreparvel desastre! murmurou Seu Ribeiro perto de mim.
E Padilha, encolhido por detrs dele:
- Num momento como este a minha obrigao era vir.
- Agradecido, muito agradecido.
E encaminhei-me ao escritrio, levado pelo hbito, murmurando sempre:
- A Deus nada  impossvel.
Sobre a banca de Madalena estava o envelope de que ela me havia falado. Abri-o. Era uma carta extensa em que se despedia de mim. Lia-a, saltando pedaos e naturalmente 
compreendendo pela me
177
tade, porque topava a cada passo aqueles palavres que a minha ignorncia evita. Faltava uma pgina: exatamente a que eu trazia na carteira, entre faturas de cimento 
e oraes contra maleitas que a Rosa anos atrs me havia oferecido.
178
Captulo trinta e dois
Enterrou-se debaixo do mosaico da capela-mor. Vesti-me de preto; encomendei uma lpida; o Dr. Magalhes, Padre Silvestre, Joo Nogueira, Azevedo Gondim, os proprietrios 
vizinhos, vieram trazer-me psames. Deixei a cama de casal e mudei-me para um quarto pequeno que tinha,  beira do telhado, um ninho de carrias. Pela manh as carrias 
pipilavam desesperadamente. Na mesa da cabeceira amontoavam-se telegramas e envelopes tarjados.
Como necessitava distrao, dediquei-me nervosamente a uma derrubada de madeira na mata. Depois mandei consertar o paredo do aude, que vazava.
Mas o entusiasmo esfriou depressa. Aquilo era meio de vida, no era meio de morte.
E pensava em Madalena. Creio na verdade que a lembrana dela sempre esteve em mim. O que houve foi que, na atrapalhao dos primeiros dias, confundiu-se com uma 
chusma de azucrinaes diferentes umas das outras. Mas quando essas azucrinaes se tornaram apenas um sedimento no meu esprito, veio  superfcie. Raramente conseguia 
agitar-me e dissolv-la: recompunha-se logo e ficava
179
em suspenso. E os assuntos mais atraentes me traziam enfado e bocejos.
Vivia agora a passear na sala, as mos nos bolsos, o cachimbo apagado na boca. Ia ao escritrio, olhava os livros com tdio, saa, atravessava os corredores, percorria 
os quartos, voltava s caminhadas na sala.
Certo dia, na horta, espiava um formigo que se exercitava em marchas e contramarchas inconseqentes. Inconseqentes para mim, est visto, que ignorava as intenes 
dele. A voz antiptica de Dona Glria interrompeu-me a observao:
- Vim dizer adeus. Vou-me embora. Levantei a cabea e vi-a diante de mim, lutada naquele vestido velho malfeito, que nos ombros quando ela se aprumava.
- Para onde?
Dona Glria descreveu descarnado, um arco: - Vou-me embora.
- A senhora no tem para onde ir.
E procurei o formigo, que tinha desaparecido. - Vou, respondeu firme Dona Glria. Esforcei-me por dissuadi-la:
- Isso no tem cabimento, mundo sem destino! Crie juzo.
Dona Glria continuou, direita como um cabo de vassoura:
- No estou pedindo conselho. Vim despedirme, que no saio como negro fugido. Mande-me as suas ordens.
Encetei um dos meus interminveis passeios, de um lado para outro:
- Est bem. Cada qual  Quando volta?
vagamente,
tesa, enentufava
com o dedo
mulher. Ganhar o
dono do seu nariz.
180
- Nunca. - Est bem. Apressei o passo: - Com quem vai? - Com Deus.
- Pois sim. O ta-se.
- Obrigada. Vou a p. A eu queimei as alpercatas: - Vai nada!
Parei soprando:
- Largar-se pelo mundo,  toa, e dizer que eu botei a senhora de casa para fora, que sou morto a fome, que arribou daqui com a roupa do corpo, no ?
Dona Glria, cada vez mais espichada, agastou-se: - E o senhor me prende? No matei, no roubei, no difamei. .. Vou.
E eu:
- Quem est falando em prender a senhora? Deixe de doidice. Quer dar o fora? Perfeitamente, no lhe seguro as pernas. Se quisesse ficar, podia viver a at criar 
canho, que ningum lhe pisava nos calos. Mas se no quer, acabou-se. Agora o que no tem jeito  escafeder-se como quem vai tangido. Isso no. Ao deus-dar, com 
uma no cano, outra no fecho, no. Prepare-se, arranje os seus picus. - Esto arranjados.
- Ento  viajar como gente, com decncia.  necessrio que se saiba onde vai morar e quanto precisa para se manter.
- No preciso de nada. Onde vou morar no sei. O que sei  que tenho de sair hoje.
- No seja criana, disse eu arrastando as palavras. A senhora  capaz de pegar no pesado? No
automvel
tem gasolina. Divir
vtn;
d        meia missa. Encruou nos romances e at os assenrntamentos de batizados lhe seriam difceis. EPouco a pouco Dona Glria abrandou. Ignoro se procncedeu assim 
em conformidade com o hbito de abrirandar ou se tinha vindo resolvida a abrandar. -- Pense no aluguel das casas na cidade, pense
no        preo dos remdios. Adoecer  fcil, Dona Glria., mas tirar a molstia do corpo  um trabalho. Pennse no mercado, no cobrador da luz, na pena de guua. 
Hoje em dia a vida  difcil em toda a parte, maas na cidade a vida  um buraco, Dona Glria.
I Dona Glria confessou que a vida na cidade  de fatoio um buraco. Tinha mostrado o desprendimento e aea altivez indispensveis. No era justo exigir mais.
1 Declarei que devia a Madalena o ordenado de trs ano-os. Dona Glria acreditou, ou fingiu acreditar.
- -  razovel a senhora receber isso. I Dona Glria concordou.
1 Dei-lhe dinheiro para a viagem, marquei-lhe uma peu.nso de duzentos mil-ris mensais e remeti-a a Josoo Nogueira, que a hospedou por uma noite e a emmbarcou.
1 Passados alguns dias Seu Ribeiro demitiu-se. - - Est falando sisudo, Seu Ribeiro?
- - Esta casa me provoca recordaes muito pungen-ntes.
- - E a mim, homem. Que diabo! Mas a sua sada  ti tolice.
- - No duvido, Senhor Paulo Honrio, no duvidbdo.
- - Ofereceram-lhe algum emprego? - - Nenhum.
- - Ento!  tolice. E o pior  que nem lhe posso datar uma recomendao. O senhor com essa idade nao se coloca. Felizmente est aqui h anos e tem
1832
feito economia. Vai retirar uma fortuna. Sempre d para ir roendo.
- Levo muita saudade, Sr. Paulo Honrio, gemeu Seu Ribeiro limpando os olhos. Saudade cruciante. Parto com o corao dilacerado.
- Pois no v, homem. Todos gostam do senhor. Fique.
- Impossvel, inteiramente impossvel. A minha resoluo  inabalvel.
- Est bem.
E olhei com tristeza o escritrio, mais desatravancado depois que a banca de Madalena tinha sido afastada para um canto.
Assim o excelente Seu Ribeiro, que eu esperava enterrar em So Bernardo, foi terminar nos cafs e nos bancos dos jardins a sua velhice e as suas lembranas.
183
Captulo trinta e trs
Padilha comeou a andar no ptio, aproximandose da casa e fazendo, quando me via, grandes cumprimentos. Afinal chegou ao alpendre e demorou-se um instante. Fingi 
no perceber esses manejos.
- Emboque, Padilha.
O prazo de um ms que eu tinha marcado para ele retirar-se voara. Padilha entrou, ficou. Deix-lo. Sempre era uma companhia.
Enquanto eu, carrancudo e cheio de preguia, olhava as cercas de Bom-Sucesso e pensava nas duas Mendona, que viviam quase na misria, Padilha falava. Falava como 
quem bebeu gua de chocalho. Eu no prestava ateno ao que ele dizia. Nada. Sempre era uma voz humana.
Afastou-se logo.
Um dia Azevedo Gondim trouxe boatos de revoluo. O sul revoltado, o centro revoltado, o nordeste revoltado.
-  um fim de mundo. Padilha. esfregou as mos:
- Afinal a postema rebentou, com os diabos! A noite o chefe poltico escreveu-me pedindo armas e cabroeira. De madrugada enviei-lhe um caminho com rifles e homens.
185
3r.e.
Depois os boatos engrossaram e viraram fatos: batalhes aderindo, regimentos aderindo, colunas organizando-se e deslocando-se rapidamente, bandeiras encarnadas por 
toda a parte, o governo da Repblica encurralado no Rio.
- Uma invaso de brbaros! Gondim. Estamos perdidos.
Padilha, numa agitao constante, devorava manifestos e roa as unhas. Enfim, quando a onda vermelha inundou o Estado, desapareceu subitamente. Joo Nogueira elucidou 
o caso:
- Padilha e Padre Silvestre incorporaram-se s tropas revolucionrias e conseguiram gales.
gritava Azevedo
186
Captulo trinta e quatro
Na cidade havia um fuxico nojento. E eu, que nunca tive gosto para safadezinhas de lugar mido, entoquei-me.
Lamentava, sem dvida, que o meu partido tivesse ido.abaixo com um sopro. Que remdio!
-  comer agora da banda podre. E calado. Os Gama, o Pereira, o Fidlis, iam serrar de cima e fazer-me picuinhas. Aborrecia-me de tudo isso. Tambm no fariam grande 
coisa. Cortar o arame da cerca, mandar o delegado de polcia tomar a faca de um cabra, na feira, e sapecar-lhe o zinco. Natural. O pior era Padilha ter seduzido 
uns dez ou doze caboclos bestas, que haviam entrado com ele no exrcito revolucionrio. Voltariam.
Para qu? Era melhor ficarem na malandragem, nos exerccios.
Bocejava. Cada bocejo de quebrar queixo. Vida estpida!  certo que havia o pequeno, mas eu no gostava dele. To franzino, to amarelo!
- Se melhorar, entrego-lhe a serraria. Se crescer assim bambo, meto-o no estudo para doutor.
L vinham os projetos. Diabo leve os projetos. O mundo que me cercava ia-se tornando um hor
187
rvel estrupcio. E o outro, grande, era uma balbrdia, uma confuso dos demnios, estrupcio muito maior.
Os amigos e os jomais traziam-me a revoluo. - Uma peste! bradava Azevedo Gondim. Foi um blu f f . Ameaas pelo telgrafo e pelo rdio, boletins jogados por aeroplanos 
todo o mundo se pelava de medo. Isto  o povo mais covarde que Deus fabricou.
- Exagero, opinava o advogado. Houve bravura. - Que bravura! berrava Gondim. Gente que devia pegar no pau-furado escondeu-se.
- Os da situao passada. Entre os revolucionrios  diferente: h idealismo, h coragem. No digo isto em pblico, mas h.
- Diabo leve o idealismo deles. E quanto a coragem...
- Vamos ser justos, Gondim, intervinha eu conciliador e murcho. Essa coisa estava na massa do sangue do povo. No valia a pena brigar.
- No valia! Ora no valia! Todos iam pensando assim e eles foram entrando. E que falta de vergonha! Figures do governo apareceram de repente com lenos vermelhos 
no pescoo.
- Isso foi em Alagoas, atalhava Joo Nogueira. - Foi em toda a parte, homem. E mesmo agora, muitos no se passam porque no so aceitos.
- Quanto a mim, declarava Nogueira, tanto me faz estar em cima como embaixo, que poltica nunca me rendeu nada. Estou embaixo e no pretendo subir.  verdade que 
sempre achei a democracia um contra-senso. Muitas vezes lhe disse. O diabo  que votei na chapa do governo. Mas, aqui entre ns, a ditadura s no presta porque 
estamos no cho. Gondim protestava, indignava-se. E eu:
188
- S queria ver Padre Silvestre fardado de tenente.
- Que interesse tem ele em bancar o patriota? dizia Nogueira.
- Animal! resmungava Azevedo Gondim. O Cruzeiro tinh perdido a subveno. Conversas assim, repetidas, distraam-me. Uma
vez por semana os dois jantavam comigo. E na cidade sujeitos exaltados comeavam a espalhar que So Bernardo era um ninho de reacionrios.
- Como vai o fusu? - Mal.
E l vinham notcias de violncias desnecessrias, vinganas, comisses de sindicncia lavando roupa suja.
Nogueira, moderado, desejava um acordo entre vencedores e vencidos.
Gondim dtestava acordos. Dente por dente, percebamos? Dava-nos conselhos violentos, a mim, ao Nogueira, s rvores do pomar, e instigava-nos a uma contra-revoluo 
(quanto mais depressa melhor) que varresse do poder aquela cambada de parlapates. Queria um governo enrgico, sim senhor, duro, sim senhor, mas sensato, um governo 
que trabalhasse, restabelecesse a ordem, a confiana do credor e a subveno de cento e cinqenta mil-ris mensais ao Cruzeiro. Como amos  que no podamos continuar.
Atirava-nos palavres encorpados que no jornal lhe serviam para tudo. So Paulo havia de se erguer, intrpido; em So Paulo ardia o fogo sagrado; de So Paulo, terra 
de bandeirantes, sairiam novas bandeiras para a conquista da liberdade postergada.
- Voc fala bem, Gondim, murmurava eu im
189
pressionado. Voc havia de trepar, Gondim, se o nosso partido no tivesse virado de pernas para o ar. Joo Nogueira metia as botas na eleio e inculcava os conselhos 
tcnicos. Gondim gostava do voto comode um filho pequeno e s admitia tcnicos nas comisses da Cmara.
Casimiro Lopes, afastado, sombro.
Eu olhava a torre da igreja. E o meu pensamento estirava-se pela paisagem, encolhia-se, descia as escadas, ia ao jardim, ao pomar, entrava na sacristia.
Joo Nogueira condenava a literatura revolucionria, a patriotice alambicada.
O oratrio, sobre a mesa, estava cheio de santos; na parede penduravam-se litografias; a porta dava pancadas no batente; apagava-se a vela, eu acendia outra e ficava 
com o fsforo entre os dedos at queimar-me. As casas dos moradores eram midas e frias. A famlia de Mestre Caetano vivia num aperto que fazia d. E o pobre do 
Marciano to esbodegado, to escavacado, to por baixo!
Azevedo Gondim reclamava liberdade, aos gritos. Contenta-se com a renda mofina do jornal e deve os cabelos da cabea. Conforma-se com isso. O que deseja  ver a 
Gazeta de mangas arregaadas, espumando, e o bilhar do Sousa, quando a carambola falha, insultar os polticos, umas toupeiras.
Agora a vela estava apagada. Era tarde. A porta gemia. O luar entrava pela janela. O nordeste espalhava folhas secas no cho. E eu j no ouvia os berros do Gondim.
escutava-os com as
190
Captulo trinta e cinco
Entrei nesse ano com o p esquerdo. Vrios fregueses que sempre tinham procedido bem quebraram de repente. Houve fugas, suicdios, o Dirio O f icial se emprenhou 
com falncias e concordatas. Tive de aceitar liquidaes pssimas.
O resultado foi desaparecerem a avicultura, a horticultura e a pomicultura. As laranjas amadureciam e apodreciam nos ps. Deix-las. Antes isso que fazer colheita, 
escolha, embalagem, expedio, para d-las de graa.
Uma infelicidade no vem s. As fbricas de tecidos, que adiantavam dinheiro para a compra de algodo, abandonaram de chofre esse bom costume e at deram para comprar 
fiado. Vendi uma safra no fuso, e enganaram-me na classificao.
Era necessrio adquirir novas mquinas para o descaroador e para a serraria, mas na hora dos clculos vi que ia gastar uma fortuna: o dlar estava pelas nuvens.
- Vamos deixar de novidade. Sacrificar-me e no fim entregar a mercadoria de mo beijada a esses velhacos!
Ainda por cima os bancos me fecharam as portas. No sei por qu, mas fecharam. E olhem que nunca
atrasei pagamentos. Enfim uma penca de caiporismos. Cheguei a dizer inconvenincias a um gerente: - Pois se os senhores no querem transigir, acabem com isso. Ou 
os papis valem ou no valem. Se valem,  passar o arame. Plulas! Eu encomendei revoluo?
Em seis meses havia to grande quebradeira que torrei nos cobres o automvel para no me protestarem uma letra vagabunda de seis contos.
- Mar vazante. Agora ganham os preguiosos. Quem devia estar vivo era o velho Mendona, que deixava a propriedade coberta de capoeira e o engenho de fogo morto. 
Trabalhar para formiga!  cruzar os braos.
E cruzei os braos.
Um dia em que, assim de braos cruzados, contemplava melancolicamente o descaroador e a serraria, Joo Nogueira me trouxe a notcia de que o Fidlis e os Gama iam 
remexer as questes dos limites. E o pior era que o Dr. Magalhes estava noutra comarca.
- Belezas da revoluo, comentou Nogueira. Um funcionrio inamovvel! E um juiz decente como o Magalhes! um juiz ntegro!
Encolhi os ombros, desanimado. Joo Nogueira desanimou tambm. Pacincia.
E recomecei os meus passeios mecnicos pelo interior da casa. s vezes empurrava a porta do escritrio para dar uma ordem a Seu Ribeiro. Parecia-me ver Dona Glria 
malucando no pomar, com o romance.
E os meus passos me levavam para os quartos., como se procurassem algum.
192
Captulo trinta e seis
Faz dois anos que Madalena morreu, dois anos difceis. E quando os amigos deixaram de vir discutir poltica, isto se tornou insuportvel.
Foi a que me surgiu a idia esquisita de, com o auxlio de pessoas mais entendidas que eu, compor esta histria. A idia gorou, o que j declarei. H cerca de quatro 
meses, porm, enquanto escrevia a certo sujeito de Minas, recusando um negcio confuso de porcos e gado zebu, ouvi um grito de coruja e sobressaltei-me.
Era necessrio mandar no dia seguinte Marciano ao forro da igreja.
De repente voltou-me a idia de construir o livro. Assinei a carta ao homem dos porcos e, depois de vacilar um instante, porque nem sabia comear a tarefa, redigi 
um captulo.
Desde ento procuro descascar fatos, aqui sentado  mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo caf,  hora em que os grilos cantam e a folhagem das laranjeiras 
se tinge de preto.
s vezes entro pela noite, passo tempo sem fim acordando lembranas. Outras vezes no me ajeito com esta ocupao nova.
Anteontem e ontem, por exemplo, foram dias per
193
didos. Tentei debalde canalizar para termo razovel esta prosa que se derrama como a chuva da serra, e o que apareceu foi um grande desgosto. Desgosto e a vaga compreenso 
de muitas coisas que sinto.
Sou um homem arrasado. Doena? No. Gozo perfeita sade. Quando o Costa Brito, por causa de duzentos mil-ris que me queria abafar, vomitou os dois artigos, chamou-me 
doente, aludindo a crimes que me imputam. O Brito da Gazeta era uma besta. At hoje, graas a Deus, nunca um mdico me entrou em casa. No tenho doena nenhuma.
O que estou  velho. Cinqenta anos pelo So Pedro. Cinqenta anos perdidos, cinqenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado 
 que endureci, calejei, e no  um arranho que penetra esta casca espessa e vem ferir c dentro a sensibilidade embotada.
Cinqenta anos! Quantas horas inteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para qu! Comer e dormir como um porco! Como um porco! Levantar-se cedo todas 
as manhs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas geraes. Que estupidez! Que porcaria! No  bom 
vir o Diabo e levar tudo?
Sol, chuva, noites de insnia, clculos, combinaes, violncias, perigos e nem sequer me resta a iluso de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o 
pomar abandonados; os marrecos de Pequim mortos; o algodo, a mamona secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avanam.
Est visto que, cessando esta crise, a propriedade se poderia reconstituir e voltar a ser o que era. A gente do eito se esfalfaria de sol a sol, alimegtada
194
com farinha de mandioca e barbatanas de bacalhau; caminhes rodariam novamente, conduzindo mercadorias para a estrada de ferro; a fazenda se encheria outra vez de 
movimento e rumor.
Mas para qu? Para qu? no me diro? Nesse movimento e nesse humor haveria muito choro e haveria muita praga. As criancinhas, nos casebres midos e frios, inchariam 
rodas pela verminose. E Madalena no estaria aqui para mandar-lhes remdio e leite. Os homens e as mulheres seriam animais tristes.
Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domsticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para 
o servio do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, l embaixo, tinham lmpadas eltricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha 
e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus.
Bichos. Alguns mudaram de espcie e esto no Exrcito, volvendo  esquerda, volvendo  direita, fazendo sentinela. Outros buscaram pastos diferentes.
Se eu povoasse os currais, teria boas safras, depositaria dinheiro nos bancos, compraria mais terra e construiria novos currais. Para qu? Nada disso me traria satisfao.
Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. Como lhes disse, fui guia de cego, vendedor de doce e trabalhador alugado. Estou convencido de que 
nenhum desses ofcios me daria os recursos intelectuais necessrios para engendrar esta narrativa. Magra, de acordo, mas em momentos de otimismo suponho que h nela 
pedaos melhores que a literatura do Gondim. Sou, pois, superior a Mestre Caetano e a outros semelhantes. Considerando, porm, que os enfeites do meu esprito se 
reduzem a
195
farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece  bem mesquinha.
Alm disso estou certo de que a escriturao mercantil, os manuais de agricultura e pecuria, que forneceram a essncia da minha instruo, no me tornaram melhor 
que o que eu era quando arrastava a peroba. Pelo menos naquele tempo no sonhava ser o explorador feroz em que me transformei.
Quanto s vantagens restantes casas, terras, mveis, semoventes, considerao de polticos, etc. -  preciso convir em que tudo est fora de mim. Julgo que me 
desnorteei numa errada.
Se houvesse continuado a arear o tacho de cobre da velha Margarida, eu e ela teramos uma existncia quita. Falaramos pouco, pensaramos pouco, e  noite, na esteira, 
depois do caf com rapadura, rezaramos rezas africanas, na graa de Deus.
Se no tivesse ferido o Joo Fagundes, se tivesse casado com a Germana, possuiria meia dzia de cavalos, um pequeno cercado de capim, encerados, cangalhas, seria 
um bom almocreve. Teria crdito para comprar cem mil-ris de fazenda nas lojas da cidade e pelas quatro festas do ano a mulher e os meninos vestiriam roupa nova. 
Os meus desejos percorreriam uma rbita acanhada. No me atormentariam preocupaes excessivas, no ofenderia ningum. E, em manhs de inverno, tangendo os cargueiros, 
dando estalos com o buranhm, de alpercatas, chapu de ouricuri, alguns nqueis na capanga, beberia um gole de cachaa para espantar o frio e cantaria por estes 
caminhos, alegre como um desgraado.
Hoje no canto nem rio.
Se me vejo ao espelho,
196
a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam.
Penso no povoado onde Seu Ribeiro morou, h meio sculo. Seu Ribeiro acumulava, sem dvida, mas no acumulava para ele. Tinha uma casa grande, sempre cheia, o jerimum 
caboclo apodrecia na roa e por aquelas beiradas ningum tinha fome, Imagino-me vivendo no tempo da monarquia,  sombra de Seu Ribeiro. No sei ler, no conheo 
iluminao eltrica nem telefone. Para me exprimir recorro a muita perfrase e muita gesticulao. Tenho, como todo o mundo, uma candeia de azeite, que no serve 
para nada, porque  noite a gente dorme. Podem rebentar centenas de revolues. No receberei noticia delas. Provavelmente sou um sujeito feliz.
Com um estremecimento, largo essa felicidade que no  minha e encontro-me aqui em So Bernardo, escrevendo.
As janelas esto fechads. Meia-noite. Nenhum rumor na casa deserta.
Levanto-me, procuro uma vela, que a luz vai apagar-se. No tenho sono. Deitar-me, rolar no colcho at a madrugada,  uma tortura. Prefiro ficar sentado, concluindo 
isto. Amanh no terei com que me entreter.
Ponho a vela no castial, risco um fsforo e acendo-a. Sinto um arrepio. A lembrana de Madalena dor da mesa. Aperto as mos de tal forma que me persegue-me. Diligencio 
afasta-la e caminho em refiro com as unhas, e quando caio em mim estou mordendo os beios a ponto de tirar sangue.
De longe em longe sento-me fatigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.
197
A agitao diminui.
- Estraguei a minha vida estupidamente.
Penso em Madalena com insistncia. Se fosse possvel recomearmos . . . Para que enganar-me? Se fosse possvel recomearmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. 
No consigo modificar-me,   que me aflige.
A molecoreba de Mestre Caetano arrasta-se por a, lambuzada, faminta. A Rosa, com a barriga quebrada de tanto parir, trabalha em casa, trabalha no campo e trabalha 
na cama. O marido  cada vez mais molambo. E os moradores que me restam so uns cambembes como ele.
Para ser franco, declaro que esses infelizes no me inspiram simpatia. Lastimo a situao em que se acham, reconheo ter contribudo para isso, mas no vou alm. 
Estamos to separados! A princpio estvamos juntos, mas esta desgraada profisso nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propsitos. Os sentimentos e os propsitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egosmo.
Creio que nem sempre fui egosta e brutal. A profisso  que me deu qualidades to ruins.
E a desconfiana terrvel que me aponta inimigos em toda a parte!
A desconfiana  tambm conseqncia da profisso.
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um corao mido, lacunas no crebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz 
enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
Se Madalena me via assim, com certeza me achava extraordinariamente feio.
198
Fecho os olhos, agito a cabea para repelir a viso que me exibe essas deformidades monstruosas.
A vela est quase a extinguir-se. Julgo que delirei e sonhei com cheios e uma figura de lobisomem.
L fora h uma treva dos diabos, um grande silncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no cho.
 horrvel! Se aparecesse algum . . . Esto todos dormindo.
Se ao menos a criana chorasse . . . Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que misria!
Casimiro Lopes est dormindo. Marciano est dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, s escuras, at no sei que hora, at que, morto de fadiga, encoste a cabea  mesa e descanse uns minutos.
atoleiros, rios
199
O AUTOR E SUA OBRA
Quando, em 1900, a famlia de Graciliano Ramos se fixou em Viosa, Alagoas, ele passou a dirigir, com apenas oito anos, um jornal para crianas, chamado "Dilculo". 
Comeava assim, precocemente, a carreira daquele que seria um grande estilista da lngua portuguesa e um dos nomes mais representativos da literatura social no Brasil.
Graciliano nasceu em 1892, em Quebrngulo, tambm em Alagoas, filho de um fazendeiro e comerciante que, depois dele, teve ainda catorze filhos. Os contnuos deslocamentos 
da famlia pelo interior nordestino forneceram ao futuro escritor fortes impresses para suas obras de fico e de memrias (como "Infncia", 1945). Estudou num 
colgio em Macei, cujo ensino deficiente, longe de desanimar o jovem Graciliano, estimulou sua curiosidade a ponto de aprender sozinho o latim, o francs, o ingls 
e o italiano.
Em 1914, decidido a prosseguir os estudos, embarca para o Rio, onde se mantm um ano como revisor de provas tipogrficas. Chamado de volta a Palmeira dos ndios, 
por motivo de morte em famlia, ali se casa e se estabelece com uma loja de miudezas. Tornou-se prefeito daquela cidade em 1928,
201
o que possibilitou, por curiosos caminhos, sua descoberta como escritor. Ao publicar um relatrio dirigido ao governador do Estado, exibia uma linguagem inusitada 
em tais documentos, chamando a ateno de seus leitores, inclusive do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt. Este pressentiu que o singular prefeito devia ter 
algum romance na gaveta. De fato, Graciliano trabalhava desde 1925 em "Caets", que Schmidt publicou no Rio em 1933.
Nessa poca, enquanto convalescia de uma grave enfermidade, o escritor concluiu sua obra-prima, "So Bernardo", primeiro romance da trilogia completada por "Angstia" 
(1936) e "Vidas secas" (I938).
No cargo de diretor da Instruo Pblica de Alagoas, que desempenhava desde 1933, foi acusado de comunista, demitido em maro de 1936 e preso por nove meses no Rio. 
Os constrangimentos fsicos e morais da priso, que abalaram irremediavelmente sua sade, esto narrados em "Memrias do crcere" (edio pstuma, 1953), grandioso 
depoimento sobre a poca do Estado Novo.
Em liberdade no incio de 1937, Graciliano passou a viver com toda a famlia mulher e trs filhos num quarto de penso no Rio. De madrugada, escrevia, para jomais 
e revistas, contos cujo estilo primoroso no deixa transparecer as precrias condies em que f oram produzidos.
Ao sair "Vidas secas" e, a seguir, "A terra dos meninos pelados" (1939), o escritor estava consagrado pela repercusso de suas obras e pelos prmios literrios que 
acumulara.
A partir de 1944, quando publica "Histrias de Alexandre", seus livros comeam a ser editados em
202
outros pases, e a consagrao adquire mbito internacional.
S ento, em 1945,  que Graciliano resolve entrar para o Partido Comunista, ento na legalidade, e em cuja imprensa milhou profissionalmente. Em 1950 traduziu "A 
peste", de Albert Camus, e no ano seguinte foi eleito presidente da Associao Brasileira de Escritores, publicando tambm "Histrias verdadeiras". Partiu para a 
Europa em princpio de 1952, com sua segunda mulher, numa viagem que terminou na Unio Sovitica.
Regressando ao Brasil, o escritor adoeceu gravemente e foi operado de cncer, na Argentina, mas j sem esperana. Em outubro de 1952, no Rio, permaneceu acamado 
enquanto a Cmara Municipal celebrava o seu sexagsimo aniversrio, em solenidade na qual discursaram Jorge Amado, Jos Lins do Rego, Jorge de Lima e outros. Faleceu 
no dia 20 de maro de 1953.
Embora suas obras completas contenham volumes de crnicas e contos,  como romancista que Graciliano Ramos se coloca no primeiro plano das letras nacionais. A sobriedade 
e correo de seu estilo, sem prejuzo do poder emotivo, transpem em novos moldes a problemca humana e social do nordeste. Intrprete e vtima do atraso cultural 
e poltico do Brasil, em certa fase de sua histria, Graciliano  hoje um clssico de nossa literatura, cujo prestgio aumenta dia a dia.
 - -rr rima  - -arOt -r V
